Falar sózinho

Se meu avô, assumidamente agnóstico, descesse dos olimpos onde agora paira e voltasse à terra, benzia-se com as duas mãos. De estupefacção, ao ver e ouvir, por aí, gente (na aparência) falando sozinha.

Nos tempos dele (e no meu, antes da revolução – não a russa, mas a tecnológica), quem falava sozinho era mal visto. Chanfrado e por aí fora – diziam no Burgo. Falar sozinho, com os seus botões suscitava suspeição sobre a saúde mental do palrador, provocava o riso e o remoque. Tudo preconceitos sancionados pelo rifoneiro: «Quem consigo anda falando, o diabo está enganando.»

O certo é que os herdei e, indígena da Vitória, tecnologicamente handicapado, nado-vivo no milénio passado e analfabeto na matéria, passei pela experiência de ver e ouvir montes de gente a falar sozinha. Nas ruas, nos automóveis, na praia, nos jardins, nos autocarros, e cheguei a pensar: com a austeridade, o assalto do fisco, a droga, os telejornais com comentadores e politólogos, a cidade está a ficar doente. E andei uns tempos às aranhas, intrigado com o desvario.

Até que caí em mim e descobri a origem da epidemia que, no meu atraso ancestral, considerava alucinação colectiva. Caí em mim quando percebi que falavam não para dentro, consigo mesmos, mas para um fiozinho pendurado no pescoço e ligado a um ouvido e a telemóvel oculto. Não era nada do que imaginara mas, simplesmente, o resultado das maravilhas do mundo actual. E mais: fiquei rendido à facilidade de falar com  os botões e comunicar com o além. Com a vantagem de poder andar pelas ruas ou a guiar automóvel falando sozinho, dizer asneiras, insultar, resmungar, deitar abaixo sem correr o risco de passar por chanfra. Temos de aproveitrar a margem de manobra dada pelas inovações. Afinal – como dizia o outro – vivemos numa época moderna.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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