Isto é que nos suja

Continuando a interagir: escreveu-me um leitor a propósito da crónica sobre os salafrários que dejectam na rua. Mas admitia: «o tema mal cheiroso não me afecta porque estou com o nariz entupido». E adiantava que, sendo fotógrafo amador, havia uma foto que nunca fizera, mas não perdera a esperança.

Não se referia às dos ditos-cujos hominidas, da espécie a que também pertencia, defecando na via pública, «mas a um ser da espécie dos equídeos, não um qualquer mas um garboso e militar equídeo.» Explicava então: «Há uns anos, estava eu na Rua de Cedofeita, já livre de carros, e passa uma patrulha a cavalo, da GNR, que deixou longo e odorífico presente espalhado pela rua.»

Perto de minha casa, também já vi disso. E recordo, a propósito, que a primeira vez que fui a Londres, ainda no milénio passado, observei que os cavalos da guarda real, postados à porta do Buckingham Palace, para não estragarem o ambiente e a selectividade do local, usavam espécie de saco pendurado no traseiro, aparando os dejectos. Limpinho, à inglesa.

Não chegámos a tal requinte. Se os humanados, de duas pernas, excrementam nas ruas, por que não hão-de os irracionais fazê-lo, com a conivência e complacência dos senhores? De resto, tal atitude altamente cultural de regresso às origens é plenamente interclassista. Pratica-se tanto nas imediações de Cristo-Rei, zona muito «in», onde certas ruas, de manhã, se apresentam como retretes de canídeos, como na Rua da Bolsa, nas imediações de zona popular, cujo passeio junto do Palácio tem a função da latrina canzoal.

É por estas e outras que me sinto cada vez mais canífobo. Não pelos bichos, que não têm culpa nenhuma, mas pelos donos, que me estragam a cidade bem-amada. Razão tinha Plauto ao escrever que «Os maus costumes mancham mais do que a lama.»

©helderpacheco2016

Advertisements

~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
%d bloggers like this: