Lembrança de D. Teresa

No dia 12 deste Agosto sobressaltado, o Porto perdeu um ícone: a Adega S. Martinho. Não por inutilidade mas porque, simplesmente, as mudanças no tecido da cidade não se compadecem com os símbolos de uma tradição cujo sentido era diferente do nosso.

De uma tradição popular e operária que atravessou o séc. XX e se desvanece com o fim das comunidades de que emergia. E de uma cultura em que as tabernas desempenhavam papel fulcral como espaços de convivência. Nelas firmaram raízes o mutualismo (nas Caixas dos 20 Amigos), o aforro (nos mealheiros), os lazeres (nos grupos excursionistas), o desporto amador (clubes de futebol, pesca, atletismo e columbofilia), o entretenimento (jogos, rádio e T.V.). E, sobretudo, o encontro com os amigos. A conversa e a discussão – essências da vida cívica.

Lugares de socialização informal estreitamente ligadas à vizinhança eram, vendo bem, os «lugares intermédios» (Oldenburg) entre o trabalho e a habitação. O seu desaparecimento representa não a morte da cidade (que está viva, mas é outra e já não a que sustentava 1 000 tabernas, em 1755, e 1862 – incluindo casas de pasto – em 1924), mas o ocaso de «uma certa cidade», densa, terra-a-terra, significante. Ou, se não quisermos iludir os factos, pobre. Uma cidade mais de povo e menos de classe média.

Depois do fim da Casa Correia, da Adega Vieira («o melhor bucho do Porto») e de dezenas de outras, com a Adega S. Martinho encerra-se um ciclo da vida portuense. Da nossa própria vida. Dos sobreviventes de uma cidade “ao nível do rés-do-chão” de que um dia destes restam a memória e a nostalgia. (E a lembrança daquele sorriso, cheio de doçura, de D. Teresa, que fazia contas em escudos e preparava um polvo com molho verde que não era deste mundo pré-fabricado a que nos vamos adaptando.)

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

Uma resposta to “Lembrança de D. Teresa”

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