Madrigal muito ajeitadinho

Esta era a noite. A noite de todos os feitiços e maravilhamentos. De todas as crenças e fantasias – ocultadas, disfarçadas, confundidas, mas reais. No sol, nas estrelas, nas águas, nas plantas, no fogo. E até no orvalho da manhã. Além de Baco, Eros, Afrodite (mas esses, em cidade de públicas e católicas virtudes, não eram para cá chamados…)

Esta era a noite. De tirar a barriga de misérias em matéria, sobretudo, de encher os corações da ansiosa expectativa de fazer a festa. A festa sentida. Dos bairros, das ruas, de todos os recantos onde pulsava a alma e o espírito da cidade. A noite sempre esperada. De dançar, falar e conviver com os vizinhos. De comer torradas e café com leite, à meia-noite, antes das magias se libertarem, e ala que se faz tarde, alho na mão, a caminho da Baixa e das Fontainhas. Esta era a noite. A que ninguém era indiferente e a que ninguém escapava. A noite das minudências que separavam o encanto de um quotidiano apreendido pelo ADN dos antepassados, do resto dos dias: comprar o vaso do manjerico, comer farturas, guiar os automóveis eléctricos, viajar no comboio-fantasma, escolher a assadeira de barro para assar o carneiro de amanhã ao almoço (talvez beijar-te, discretamente, como, no Porto, os beijos sabem melhor). E ainda mais futilidades: ver o fogo, da varanda do Snr. Quirino, no Muro da Ribeira, meter a moeda na caixa das esmolas da cascata das Fontainhas, entrar em guerra de alho com uma seita de Paranhos a meter-se com as raparigas da Vitória, esfregar arruda na tromba daquela peneirenta a armar ao fino na noite das absolutas informalidades (talvez dizer-te que a vida não passa e, tal como o S. João, somos imortais, porque não podem tirar-nos o que ficou para trás – como a lembrança de ser feliz. Como esta noite.).

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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