O céu na terra

Disseram-me que, este ano, foram construídas no Burgo muitas e belas cascatas. É bom sinal. Sinal de que a missão civilizadora dos tecnocratas de Bruxelas e seus asseclas domésticos ainda não produziu os efeitos pretendidos: apagar a diversidade, amordaçar as diferenças, rasoirar as culturas próprias em troca do marketing, o pronto-a-vestir estético, o cosmopolitismo da espinhela caída. Em última análise, a normalização do espírito da gente. A substituição da alma.

É sinal de que a cidade resiste e persiste. Que a criatividade na tradição e a continuidade de uma herança permanecem activas. Sem disfarces, já que, apesar da pressão para se travestirem de modernidade, as cascatas demonstram não serem adaptáveis à conformidade.

Porque a formatação das cascatas é outra, nos antípodas dos burocratas da inovação. É feita de fantasia, imaginação e apego às raízes. Às funduras do tempo. Feita de gestos amorosos, delicadezas subtis, espontaneidade. Feita de estar-se nas tintas para o estereótipo vindo de fora e estereotipando segundo os padrões de dentro, do coração e do afecto. Porque as cascatas representam o céu na terra, o princípio do mundo, a pureza, a alegria e a bem-aventurança de um quotidiano pacífico. São a representação da vida feliz, sem austeridade, refugiados, epidemias, terror. Nelas, o trabalho é universal, o contentamento generalizado (até dançam e cantam nos caminhos da aldeia), o lazer omnipresente num quotidiano sem violência, nem comissários europeus. Sem, sobretudo, mercados e especuladores (nas cascatas, o único lucro é a riqueza comezinha de brincar com bonecos de barro).

Disseram-me que, no Burgo, este ano, se construíram muitas e boas cascatas. Conforme o hábito e o costume. Como diria Júlio Dinis: «O Porto passa sem novidade. Deus o conserve.»

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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