S. Bartolomeu

Quando o diabo tinha dia certo para perturbar as pessoas, 24 de Agosto era o aprazado para o efeito. Opuseram-lhe, então, as virtudes protectoras de S. Bartolomeu e das águas do mar. Em sete mergulhos. E, por detrás, esconderam um culto pagão – mas esta é outra história.

Era a festa. A romaria, com música, foguetório, comilança, boa pinga, doces caseiros e melancias. Dançavam, cantavam, tomavam banho e, no fim de tudo, enchiam a pança. Da Foz a Matosinhos e a Leça. Depois o mundo mudou e a festa urbanizou-se e deu origem a uma das maiores tradições inventadas no Burgo do séc. XX: o cortejo de trajos de papel.

Disse-me um velho fozeiro que terá sido inventado em 1942 pelo bairrista Joaquim Picarote, ajudado pelo banheiro do Ourigo José Padeiro. Acredito. O primeiro tema terá sido “Os Piratas”. O cortejo pegou de estaca e converteu-se em hábito e costume. Com entusiasmo, devoção e amor à causa da cidade. Não sei se Europa fora há festa assim. Cortejo assim. Dedicação assim. E paixão de andar noites, semanas a urdir, cortar, coser dezenas de trajos para – conforme o tema – vestir numa certa manhã, desfilar com eles e, no fim, deitá-los ao mar. Afinal, S. Bartolomeu faz milagres. De persistência e dádiva. Da alegria de viver e conviver às cores. Exuberantemente.

Este cortejo vestido de papel é um fenómeno. É património de humanidade. É boa Cultura e melhor acto cívico.E é altura do Burgo o assumir como acontecimento relevante. Porque o S. Bartolomeu da Foz vale mais do que mil Movidas. Se é único e diferente, do que se está à espera para o promover como atracção, espanto e criatividade no Agosto portuense? Querem «happenings» e «artes performativas»? Aqui os têm, para milhares de pessoas. Abram os olhos para esta cidade que só precisa de entusiasmo na celebração.

©helderpacheco2016

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
%d bloggers like this: