Sonho ou realidade

À forma esvoaçante a que a escultora Janet Echelman chamou “She Moves” o povo baptizou-a como “Anémona”. Agora, à forma firmemente ancorada no Molhe Sul de Leixões, já ouvi chamar “A Concha” e, prosaicamente, “O Caracol”. Falo do Terminal de Cruzeiros que se oferece na paisagem que nos habituámos a contemplar a partir do Castelo do Queijo.

Confesso não saber como o designar: a utopia tornada concreta? A fantasia convertida em obra de arte? A escultura da irrealidade? A arquitectura do sonho? Tudo junto não explica este projecto que merece ser apresentado como marca da modernidade no nosso Património. A par da Casa da Música (e melhor do que ela porque, nele, ninguém cai nas escadas e uma cadeira de rodas vai a toda a parte e sobe até ao céu). E da Torre dos Clérigos. Ou das Pontes.

Segundo o seu Programa, a fantasia arquitectónica destina-se a terminal de cruzeiros, apoio ao porto de recreio, Pólo da Universidade do Porto, espaço de eventos e restaurante. E, para o conseguir, entre o mar e a terra (mas a 800 metros dela), o Arq. Luís Pedro Silva, inventor da concha mágica, luminosa e transparente, deu um pontapé na formatação que nos inundou de minimalismos habituais e criou o paradigma da contenção na exuberância, do rigor no depuramento, do barroco para um novo tempo estético. Conservador resolutamente inovador, na ponte entre ruptura e tradição.

Além de ser urgente colocar o Terminal de Cruzeiros no mapa das mais-valias da nossa projecção interna e exterior é ainda mais urgente abri-lo ao território. À gente e à cidade. Que as pessoas o utilizem. Património sem uso e só para ver não vale a pena. Penso eu, indígena da Vitória, básico na matéria e embasbacado com este edifício que ainda não percebi se é real ou apenas fruto da imaginação. De tão belo.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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