Trepar e atrepar

Quando na Vitória vivia gente e se falava português, diziam: «quem quer bolota atrepa». Não era canónico, mas entendia-se: quem quer alguma coisa tem de lutar por ela.

Em maré de comunicações de leitores, uma carta recebida refere: «Sou do Porto desde 1933, natural de Miragaia, emigrado para Coimbrões por força do destino. Porém, a ligação à minha terra manteve-se viva.» E explica a razão da missiva: «Há dias, tive de acompanhar um Amigo, emigrante como eu, que, finalmente, saiu de Gaia para descansar na última morada, no Prado do Repouso. Entrámos pela porta sul e virámos até ao talhão da Irmandade do Terço, onde ia a sepultar. E fui reparando no estado lamentável em que se encontra o Campo Santo: jazigos em ruínas, pedras enegrecidas ou afundando-se na terra, lápides irreconhecíveis, gradeamentos enferrujados, partidos ou arrancados, sepulturas degradadas, um espectáculo triste e deprimente. Até um jazigo-capela se inclina para trás, prestes a tombar. Eu vi, tal como dois talhões infestados de ervas daninhas. Não posso, por isso, deixar de admirar o cemitério de Stª. Marinha, asseado, impecável, sem ervas daninhas. O cemitério do Prado não mereceria que pusessem termo àquela lamentável destruição?»

O Prado do Repouso representa o cemitério oitocentista, como alguns, Europa fora. É um recurso cultural (e turístico, agora que só se fala nisso) essencial à afirmação do Burgo. Mas a nossa esperteza não chega para perceber o que, em Londres, significa o cemitério de Highgate, em Paris os do Père Lachaise e Montmartre, e ninguém passa em Washington sem ir a Arlington.

Temos de aprender muito para valorizarmos a cidade que nos foi legada. Até a atractividade de um cemitério romântico. Porque quem quer ser competitivo tem de «atrepar» à bolota chamada categoria.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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