Um artista e cidadão na sua íntegra humanidade

livro_martins_da_costa_contos_vividosTenho um ritmo longo demais para louvar-te, Poesia Maior, porém, era a beira-mar da minha cidade onde, menino, inventei navios antes de tê-los visto.                

Lêdo Ivo, Cântico

1.- Não há dúvida de que a vida – ou as suas inconstantes realidades – não pára de nos surpreender. De facto, antes de ler as crónicas deste volume, fazia do meu amigo e Mestre, Professor João Martins da Costa, determinada ideia e cultivava uma imagem algo divergente da que emergiu dessa leitura. Não que fosse pior ou melhor, mais negativa ou mais positiva, mas, sim, era segura e inesperadamente diferente. Culpa minha. Com os contactos e convívios que tivemos, o observador sagaz teria feito uma interpretação mais hábil e ajustada da sua personalidade e acertado na compreensão dos seus múltiplos talentos, interesses e afeições. Em meu benefício e, como desculpa, ocorre apenas referir a especial condição do visado de disfarçar, sob a aparência da imutabilidade, da austera indiferença e até do afastamento das circunstâncias do quotidiano, de ocultar, dizia, o seu rosto mais verdadeiro: afável e cheio de simpatia pelas pessoas, cordato e compreensivo para com as que apreciava, pleno de simplicidade e exuberante na cumplicidade estabelecida com as pequenas e grandes surpresas que amadurecem e enriquecem o nosso dia-a-dia.

Mas, pensando bem, tinha realmente a obrigação de o conhecer, digamos, mais por dentro. Encontrámo-nos nas lonjuras dos anos cinquenta do século passado, quando fui seu aluno numa disciplina terminal – já nem me lembro da designação – de um Curso então integrado nos “Preparatórios de Belas Artes”. Destinava-se aos que, joeirados pelo crivo ou a peneira do estatuto económico, conseguiam, no Ensino Secundário Técnico, atingir o patamar seguinte na ascensão académica. Para jovens na casa dos 17 ou 18 anos, seria um ano de experiências estéticas, de abertura ao mundo da arte ciosamente cultivada e promovida por um mestre culto e cosmopolita, com os pés bem firmados no chão do Porto e a imaginação e o olhar em todos os lugares em voga – designadamente depois da sua experiência europeia – do mundo artístico. Foi um ano a encher-nos (ao grupo restrito de raparigas e rapazes – sete ou oito, se tanto) de ideias e visões elaboradas sobre a Arte, escapando à sorte da maioria, obrigada compulsivamente a ingressar na vida profissional à procura de emprego. À sorte dos ex-colegas a quem tinha sido negado o direito de acesso ao ansiado escalão, mirífico e socialmente confortável, chamado ensino superior. (E tal sensação de injustiça pesava-nos, em espécie de má consciência, involuntária e inocente, relativamente aos que deixáramos para trás.) Mas, ainda assim, seria, como disse, um ano a encher-nos de informação teórica e prática e de contactos, através das imagens, com os movimentos culturais «lá de fora». De ver e aprender os nomes sonantes que o Professor considerava balizas essenciais para a nossa formação. De El Greco (cuja obra conhecera em Toledo) a Picasso, passando pelos mestres italianos, que admirava. Uma abertura para o mundo, segundo a visão que dele mantinha e considerava correcta. Sem constrangimentos. Quase de igual para igual. Nem parecia uma disciplina escolar, mas antes uma oficina e laboratório de pesquisa. Acabado esse ano ímpar, seguimos os nossos caminhos e deixámos de o ver durante o período de tempo que durava obter o almejado canudo nobilitador e indispensável ao exercício da actividade docente (que, na altura, significava futuro certo e seguro).

Reencontrámo-nos, então, cinco ou seis anos depois no estágio para professores do 5.º grupo do Ensino Técnico. Ele como Professor Metodólogo, eu como Professor Estagiário. Em época de furibunda hierarquização civil, em certos aspectos mais graduada do que a da tropa, a situação de Estagiário significava, em alguns grupos docentes, a completa subordinação e a absoluta dependência dos ditames do Sistema ou dos humores e determinações dos responsáveis pela formação. Nanja no 5.º grupo. Por um lado, porque as artes – então consubstanciadas no ensino de Desenho – eram algo que se prestava à fantasia, à subjectividade, ao livre-arbítrio, à indagação e, especialmentre – céus! –, à criatividade de professores e alunos. Por outro lado, porque, com o Professor João Martins da Costa como orientador, pese embora o rigor, a exigência ou – chamando as coisas pelo seu nome – a disciplina e as regras colocadas nas tarefas a que os estagiários estavam vinculados, o ambiente pressentido durante os dois anos (que poderiam ser de provação e penitência) de formação constituiu um período enriquecedor e inesquecível de aquisição de conhecimentos e técnicas de ensino. E que, à distância de meio século, permanece uma vibrante reminiscência do passado. Tudo isto aliado ao facto de o Metodólogo do 5.º grupo (como era apelidado nos corredores e meandros das Escolas Técnicas onde os estágios se realizavam) ter organizado e instalado no Porto um precursor Centro de Recursos (quando só se falava nisso na estranja), destinado a apoiar a informação e prover os estagiários na capacidade documental e científica indispensável ao exercício da profissão. No fundo, os dois anos de Estágio constituíram espécie de sequência lógica das descobertas encetadas anteriormente na tal disciplina do ensino artístico cujo nome não recordo. E o tempo passou a galope mas, desta vez, não nos separámos de imediato, como antes tinha acontecido.

Não nos separámos porque, por estranhos e desconcertantes acasos em que as cidades como o Porto (quero dizer, suficientemente pequenas para toda a gente se conhecer e suficientemente grandes para, não raro, as pessoas nunca – e, às vezes – jamais se encontrarem), pelos tais estranhos desígnios, as ironias do acaso tornaram-nos vizinhos na mesma Rua de António Patrício, num bairro cheio de arvoredos e sossego na zona muito cobiçada do Campo Alegre. Tal proximidade conduziu a certas intimidades familiares, não já de aluno/estagiário e professor mas de amigos e próximos. De quem mora ali ao lado.

Tal condição amical e geográfica traria com ela várias consequências. E, como já vinha sendo habitual no nosso relacionamento, inesperadas e completamente heterodoxas. A saber (a mais controversa): pescarias, à cana, a seu convite, no Rio Douro e na Bacia de Leixões. Na altura, o Professor deslocava-se num Volkswagen cinzento-grenat, rebocando, para aquele efeito, a sua lancha a motor e, nas tardes, calmas ou ventosas, a gente – como se diz no Burgo – ia «dar neles», peixes, obviamente. Mas esta convivência pesqueira ia acabando mal. Foi assim: num dos sábados à tarde habitualmente usados para o desporto do anzol, nós dois, mais o seu confrade crónico na matéria, o José da Cruz Castro, Mestre de Oficinas na Escola Gomes Teixeira (creio terem sido colegas de infância ou algo parecido), estávamos ancorados no meio da Bacia de Leixões, quando nos caiu em cima uma borrasca assanhada, quase tempestade, que obrigou a fugir, por entre os navios, para sítio abrigado da tormenta. Fuga só levada a bom termo graças à perícia e à coragem do timoneiro e dono da lancha, que enfrentou bravamente a procela e nos depôs em terra sãos e salvos. Depois de respirarmos de alívio, os três ex-candidatos a náufragos – não fora aquela arriscada manobra, e nem a alma se nos aproveitava! – fomos comemorar, ainda pálidos por dentro e por fora, com Vinho do Porto, o acontecimento, no 3.º andar onde o nosso salvador morava. (Creio que D. Rosa, personificando a candura em pessoa, nunca se apercebeu de que os três pescadores, cedo e à força regressados da faina, festejavam realmente o estarem vivos.) Descobri também numa crónica deste livro a razão da habilidade demonstrada no salvamento: o Professor fizera exame para navegar nos seus barcos “Piranha” e “Pato Bravo”, obtendo carta de marinheiro, para enfrentar o mar, na Capitania do Castelo do Queijo, lá nas funduras da Boavista, onde morávamos.

A outra consequência daquela nossa vizinhança em António Patrício (como também se diz no Porto, e não na) foi a de, pela primeira vez (mais haveria), substituir o meu antigo professor numa função docente (neste caso, melhor dizendo, numa actividade educativa). Para isso, certa ocasião – o que raramente fizera – procurou-me em casa e propôs-me ocupar o seu lugar de coordenador de actividades artísticas no Centro de Recuperação de Crianças Deficientes Mentais, recém-criado pelo Dr. Leonardo Coimbra, o primeiro no Norte do País em tal domínio (facto que, por si só, nos anos 60 em que avançávamos, consubstanciava o atraso em que o país se encontrava). Explicou-me que entrara no projecto por amor à causa (a colaboração era benévola) mas, por ter sido convidado para realizar uma pintura de grandes dimensões em edifício público que não fixei, teria de o abandonar. E lembrara-se de mim. Aceitei e lá fiquei meia dúzia de anos ajudando a pôr em pé aquela notável e pioneira instituição, tarefa só interrompida com a morte trágica, na Guiné, do Dr. Leonardo Coimbra, cabeça e coração da iniciativa.

Mas as ironias do destino, acaso, sorte, congruências (ou incongruências) dos acontecimentos que nos moldam a vida não ficaram por aqui. Assim, por razões que nunca consegui descortinar (nem a tal, sequer, me dispus), no consulado ministerial do Dr. José Hermano Saraiva, o Professor João Martins da Costa deixou de exercer o lugar de Metodólogo do 5.º Grupo do Ensino Preparatório. A explicação mais fácil seria a alteração da estrutura orgânica do próprio Ministério da Educação. Mas não sei realmente o que conduziu ao imprevisto convite que me foi dirigido para o substituir naquela função, dando continuidade ao trabalho por ele encetado. (Ignoro se nas abas ocultas do convite não estaria o seu dedo ou influência…) Embora mais motivado, na altura, para a carreira académica na área de História, aceitei o desafio. Tínhamos, entretanto, deixado de ser vizinhos, pois mudara-me, com a família, para outra zona da cidade e, tal como atrás ficou dito, o Porto é suficientemente grande para nunca mais nos encontrarmos. (Vimo-nos, de raspão, na inauguração da sua exposição na “Degrau Arte”, por 93 ou 94, e foi tudo).

Também preponderante neste afastamento seria o 25 de Abril e as suas encruzilhadas. Sábia e avisadamente, o Professor afastou-se do turbilhão ausentando-se para, segundo as suas palavras, «um lugar para invejar, sobre o Vale do Mondego, no meio das oliveiras e dos bandos de passarada», enquanto eu (habitando a fantasia de que iria ajudar a construir um país novo, diferente e melhor) caí em cheio no centro da tormenta. E só encerraria o ciclo das ilusões como Inspector-Principal da Inspecção-Geral da Educação, ao invés do Mestre que, sabendo muito mais de tudo e especialmente da prática da sobrevivência, não hesitou em tornar-se simples, humilde e (certamente) muito eficaz e competente professor dos jovens de Penacova que, com isso, só ficaram a lucrar. Infinitamente. E quanta grandeza esta, da abdicação do poder e da mundanidade para, modestamente, se devotar de corpo e espírito à nobre função docente, seguindo a opção que assim explicava: «Presentemente vivo na província.» E ponto final. Tudo, portanto, nos separou: as contradições da vida, as transformações do país, as escolhas profissionais. Para mim, a sedução da carreira; para ele, o despojamento quase ascético da ambição. Provavelmente ganhou a aposta.

Para grande surpresa reencontrámo-nos agora, ou reencontrei-o em toda a plenitude do seu pensamento e personalidade. Nestas crónicas. E foi, como também atrás ficou dito, a revelação, o prazer, o descobrimento de um rosto e de um personagem que se escondera por detrás do profissional rigoroso, do funcionário intransigente na defesa de compromissos e valores, do artista empenhado na afirmação do seu mundo interior. Uma surpresa que, afinal, não o deveria ter sido, pelos múltiplos sinais que, outrora, recebera. E ainda bem que assim foi. Já que a qualidade da escrita, a lisura dos procedimentos nela expressos  e o universo de sedução que dela ressalta facilitaram a leitura e induziram, sem reservas, uma admirativa cumplicidade. Porque, apesar de tudo quanto dizem por aí, as palavras escritas ainda contam e valem como instrumentos de partilha e convivência, aqui ficam as que as crónicas do Professor me suscitaram.

2.- Falemos então deste livro. Existe em Portugal uma brilhante tradição de escrita praticada por artistas plásticos que, pousando os pincéis (no caso dos pintores) ou o escopro e o martelo (os escultores) cultivaram, a par, a arte das letras. Para não falar dos antigos, como Cirilo Wolkmar Machado traria à colação, já no séc. XX, desde logo, Diogo de Macedo.  Mas também, Salvador Barata Feyo, António Carneiro, Fernando Galhano. Armando de Lucena, Alfredo Betâmio de Almeida (contemporâneo de Martins da Costa, na metodologia do Desenho do ensino liceal), Varela Aldemira, Calvet de Magalhães (seu contemporâneo lisboeta do Ensino Técnico, naquela função), Júlio Resende, Emerenciano, Flor Campino, Rocha de Sousa, Irene Lucília, António Quadros (como ele ou como Gravato Dias) e muitos outros. Para o meu sentido crítico (não só pela capacidade revelada, mas especialmente pelo inusitado) João Martins da Costa, com as suas crónicas, inscreve-se por completo nesta tradição. Enriquecendo-a na vertente de testemunhar o quotidiano através do processamento da autobiografia que, paulatinamente, nos vai expondo.

As suas prosas constituem um rigoroso registo da memória, trazendo até nós factos e acontecimentos de lugares por onde passou ou onde viveu. Mas o cronista não se limita a ser retratista ou testemunha daquilo a que vai assistindo, porque, à medida que expõe a sua visão na realidade, não deixa de explanar os conceitos e princípios que lhe pautaram as escolhas (como em “A Segunda Infância”, ao afirmar: «Anos felizes? Sim, à minha maneira. Já que tinha nascido livre, para ser livre e, embora o tributo, por vezes, tenha sido muito pesado, nunca fui capaz de a atraiçoar, a ela, a liberdade.») Depois, e tal sucede ao longo de todo o livro, ve-mo-lo embrenhar-se em pormenores de uma passagem, fugaz, pelas localidades em que seu pai, soldado da GNR, ia sendo colocado. Como em Coimbra, na Quinta do Cidral, ainda a determinação dando sentido à frase: «O mundo da infância, que, desfrutado em liberdade, é de uma riqueza constantemente renovada», seguida de um trecho impressionista dos costumes do lugar: «As escamisadas, à procura do tão cobiçado milho-rei, e depois a volta à roda toda, dando e recebendo beijos e abraços das raparigas. O jogo das escondidas, o eixo ribaldeiro, a cabra-cega, o jogo da bilharda, do pião, do pincha a tostões, das guerras à pedrada, dos pontapés nas canelas e da bola feita de peúgas, da ida às amoras e aos figos, das figueiras da Ribeira de Selgã e das várzeas de Vila Nova, do armar ratoeiras e costelos entre os milheirais das ínsuas do rio, das pescarias no Mondego, das banhocas de cuecas ou sem elas, dos papagaios de papel a voarem presos com linha de carrinho de costura, enfim, dos mil e um jogos e brincadeiras que descobríamos ou inventávamos.» E o remate, poético, deste mundo de maravilhamentos: «Os dias eram compridos, como compridas eram as semanas e os meses.» (Do cronista ao etnógrafo e ao poeta, ia um passo.) A visão e o apego aos valores, hábitos e costumes locais (que não exclui a sua denúncia, quando negativos e significando atraso ou retrocesso), estão, de resto, patentes em inúmeros escritos, como em “A Terra a quem trabalha”, onde diz: «(…) fiz-me lavrador. (…) Abri caminhos, fiz muros, construí ramadas, instalei depósitos de águas (…), fiz capoeiras (…). Em pouco tempo, pois a terra estava folgada, passei a ter fruta, uvas, tomates, figos e outras novidades (…). As oliveiras foram podadas, raspadas, limpas de ramas e velhos líquenes, revigoraram.» Mas, apesar do contentamento, aproveita para delatar os oportunistas de ocasião: «Como em Portugal tinham, de um dia para o outro, passado todos a serem senhores, e mesmo pagando bem, ninguém me quis ajudar, fui eu que, nas horas livres, meti mãos ao trabalho.»

Penacova, refúgio e reencontro com as coisas essenciais (já difíceis de encontrar nos ambientes citadinos de onde se afastara), surge evocada e retratada nos múltiplos aspectos de um espaço contraditório, mas fascinante para quem pretendeu regressar às origens. É, por exemplo, clara a simpatia pelo espaço convivial da farmácia do Sr. Redondo, «para além de mais um ponto de encontro, o verdadeiro café da vila. Era ali que, ao fim da tarde, as pessoas se encontravam para saber as últimas novidades e para um pouco de má língua.» E acrescenta: «Em grandes frascos e boiões de cerâmica, devidamente etiquetados, guardavam-se as mesinhas destinadas aos remédios que eram manipulados, muitas vezes, à frente do freguês, sobre o tampo de mármore. (…) Tudo ali respirava a calma e aconchego de um ambiente fresco, sobretudo nos dias de calor.» Não obstante, o cidadão interveniente, não deixa de zurzir os «negócios da medicina» ao escrever: «(…) quanto mais receitam, melhor corre o negócio. Criou-se uma cadeia de interesses que começa com os laboratórios e passa pelas farmácias, análises, radiologistas e clínicas.»

A vocação do «etnógrafo» (de que, no contacto mantido com o Professor, jamais suspeitara) atento à tradição popular vem à superfície no trecho magnífico dedicado ao ciclo natalício. Sob o título “Os Meus Brinquedos”, deixou-nos uma das mais belas crónicas (que Alberto Pimentel ou Ramalho não enjeitariam), ao escrever: «O Natal era um dia e principalmente uma noite diferente dos outros dias do ano. Havia filhós, as rabanadas e bolinhos de abóbora, as filhoses, como lhe chamavam. Havia a ceia de Natal, com a família vinda, muitas vezes, de outras terras, havia as tias e os primos, havia as brincadeiras dos rapazes e das raparigas (…) Na manhã seguinte havia (quando havia) o presente na lareira ou debaixo da chaminé: um par de peúgas ou uma camisola de lã, tricotada pela mãe ou pela avó.» Mas aproveita, uma vez mais, para fazer pedagogia criticando o consumismo: «Tenho aqui, à minha frente, um artigo (…) relatando um inquérito feito às crianças de algumas escolas do concelho (Agrela, Coiço e Paradela da Cortiça) (…) com pequenas excepções, quase todas querem as mesmas prendas: bicicletas, computadores, consolas de jogos, pistas de automóveis, um “Neunuco”, um “Action Man” (…) Hoje tudo tem a ver com modas e o Pai Natal é coisa que já nem existe.» E remata com a precisão do educador (idealista e romântico): «Muitos anos mais tarde, passei a ensinar meninos e nunca me esqueci desse meu tempo (…) Continuei a levar para a escola os meus piões, os balões e os papagaios e ensinei-os a fazer, do mesmo modo como tinha aprendido.»

Noutra crónica admirável de emoção, João Martins da Costa evoca o seu primeiro Natal a sério, em Loulé, cantando-o pelas ruas da vila: «acompanhando um grupo de rapazes e raparigas, lá fomos de porta em porta, cantando as boas festas, em louvor do Menino, da Virgem Maria e das pessoas de casa que a essa hora consoavam (…) Havia mais poesia e menos materialismo.» E descrevia o Presépio (novamente na esteira de Ramalho): «No centro da sala principal, que normalmente dava para a rua e, nessa noite, estava geralmente aberta, exposto o presépio de que todos cuidavam em caprichar.» E à frente: «Mas, de todas essas maravilhas, uma me tocou em especial: eram as tenras searas que, em certo ponto, se interrompiam para dar lugar a um sereno lago, onde patos e peixes vermelhos, de celulóide, mansamente vogavam.» Sem qualquer exagero, este trecho sobre os Natais do autor representa um exercício literário de grande beleza formal, em que o sentimento palpitante da recordação da infância mais se adivinha no conjunto da obra.

O tom nostálgico de uma escrita tão envolvente leva-nos, em muitos momentos, para um território quase fílmico onde as imagens brotam, espontâneas, da fluência da narrativa e da emoção nela posta pelo narrador. E, se alguma analogia cinematográfica nos ocorre (ou me ocorre), é a referência ao inesquecível Amarcord, de Fellini (que, convém não esquecer, significava a contracção das palavras Amar e Recordar). Assim acontece em muitas crónicas. Como nessa deliciosa “Perdi a liberdade de ser livre”, assombrosa de ternura e pormenores do quotidiano de um rapazinho que descobre as delícias de viver a meninice em Penacova, explicando: «Nesse ano fazia sete anos, idade obrigatória para começar com a escola e, no primeiro dia de Outubro, lá fui eu, de sacola de serapilheira a tiracolo, até ao Largo D. Amélia.» E depois: «Na minha infância, os cheiros tiveram uma importância fundamental. Desde o perfume das limas e das Maias, foi toda uma mescla de odores que sempre me acompanhou. Uns mais agradáveis, outros repelentes, foram muitas recordações que ficaram arrumadinhas na minha cabeça, como as plantas no ervanário.» Ou este pedaço antológico da ligação às alegrias breves e comezinhas: «O cheiro, por exemplo, da broa acabada de cozer. Quando ia com uma das minhas tias-primas ao forno comunitário, havia sempre um mimo especial, uma pequena “micha”, uma broa que era recheada com galinha, chouriço ou duas ou três petingas (…) Havia ainda as batatas cozidas com casca e as sardinhas assadas à lareira, temperadas com um fio de azeite e a sopa de feijão vermelho com couve a que, um naco de toucinho ou de presunto davam o tempero.» Mas adverte: «Comidas de outros tempos e não de todos os dias, pois foram anos de dificuldades.»

3.- Não é preciso imaginar grandes malabarismos de interpretação da leitura destas crónicas, para compreender a importância nelas concedida ao tempo portuense. Ao período – porventura profissional e artisticamente mais exaltante do Professor – da sua vivência da cidade do Porto. E mais: os relatos, evocações, lembranças ou simples apontamentos de acontecimentos, lugares, personagens e épocas associadas à urbe nortenha constituem um repositório de notícias sobre a mesma. Um depoimento fiel dos meandros em que a vida social e cultural decorria, nas décadas de 1930 a 1970, quando partiu para o seu voluntário exílio longe da cidade a que, no fundo, ficara profundamente ligado (ou não lhe dedicasse parte significativa dos seus escritos) e de que escreveria (em “Porto, a terra dos tripeiros”): «o Porto foi sempre uma cidade empreendedora e activa. Uma cidade com uma beleza única e austera que só consigo comparar a Toledo.». De resto, em carta que me dirigiu em 11.11.1992 escrevia: «O Porto é para mim o sítio onde ainda tenho os maiores e melhores amigos, independentemente de ser a minha terra de adopção, de homem e de artista. Pena é que tudo se tenha modificado tão rapidamente e hoje já aí não possa ir, como dantes acontecia, para desfrutar dos prazeres que a sua calma contemplação me proporcionava.»

Não espanta, pois, o papel que o Burgo portuense desempenha neste livro também construído de afectuosas recordações. Em muitos aspectos, a escrita precisa e aparentemente objectiva não consegue disfarçar a substância sentimental de que é feita. E, por isso, para os apreciadores do relato e da quase reportagem jornalística, inúmeras páginas dos «contos vividos» por João Martins da Costa constituem documentos preciosos para a compreensão da sociedade portuense dos meados do século passado. E, ademais, são um retrato palpitante de hábitos e costumes da Invicta na mesma época.

Num apontamento inicial, ficamos a saber que o Professor iniciou a aclimatação à cidade no Bairro de Massarelos, «com uma vista sobre o estuário do Douro», local deslumbrante – provavelmente num dos bairros operários ali existentes -, em 2001 integrado num dos percursos dos “Caminhos do Romântico”. E fala-nos no farrapeiro que lhe permitiu as primeiras descobertas de livros e revistas postos no lixo, onde encontrou o primeiro Júlio Verne. E fala-nos do rio e do trabalho (quase escravo) de mulheres na descarga do carvão. E do ancoradouro da Alameda onde atracavam os veleiros da pesca do bacalhau. Em páginas densas e emotivas, evoca-nos a Central Termoeléctrica, os Gasómetros que ainda conheceu e até o bastião piscatório da Afurada, na outra margem. Ou a construção naval nos estaleiros do Ouro (mais tarde desmantelados em nome da competitividade). E, demonstrando aguda sensibilidade social, não deixa de aludir às carquejeiras (ou, assim designadas, «ouriços humanos»), mulheres que «em grandes carregos, transportados à cabeça pela íngreme encosta até ao alto das Fontainhas» levavam depois 50 ou 60 kg de carga através das ruas. E comentava acidamente: «trabalhava-se rijo e mal pago para que à “Cidade Invicta” nada faltasse».

Mudou a seguir para a parte oriental do Burgo, no Freixo, «no lado nascente da cidade, junto ao Douro», fixando-se numa das quintas frondosas de Campanhã, dizendo: «era murada, tinha, perto da nossa casa, um largo portão que dava directamente para a marginal». Ali experimentou, pela primeira vez, a pesca à pai Adão, «que consistia em» meter dentro de uma ceira uma pedra para fazer lastro, amarrar – um rabo de bacalhau ou uma sardinha – e deixá-la ir ao fundo.» (Creio que os «crustáceos» de que fala deviam ser caranguejos ou camarões… Fracas pescarias.) Novo salto dentro da cidade e vai residir na hoje muito in Rua do Rosário. Dali, para chegar à Escola de Faria Guimarães, fazia longa caminhada através do centro do Porto. Naquela «antiga fábrica de chapéus», em más condições, conheceu professores com nomes sonantes na cultura da época: Cláudio Basto, Francisco Torrinha (autor de um dos mais famosos Dicionários de sempre), Casimiro de Freitas, Pedro de Figueiredo, António Corte-Real, Abel de Moura. Além do director e Escultor Sousa Caldas – uma referência. Tempos em que pelo Ensino Secundário Técnico (tal como no liceal) passava verdadeiro escol intelectual! Desvenda-nos outrossim que teve como condiscípulo o destacado Pintor Isolino Vaz. E, neste corrupio de memórias dispersas, até a figura amedrontadora para várias gerações do “Evidente” (o matemático Casimiro de Freitas), considerado a maior fera da época no ensino público, surge da gaveta do esquecimento onde agora jaz e ganha alento nas páginas deste livro. Tal como sucedia comigo, que, anos depois, ainda o suportei, o nosso cronista diz: «gramei mais um ano de uma disciplina em que as equações, as álgebras e as trigonometrias nada me diziam».

Neste repositório de assuntos portuenses (e, até por isso, João Martins da Costa merece a nossa gratidão) sentimos o fluir dos acontecimentos que marcaram as diferentes épocas da vida do narrador. Assim, na saborosa crónica dedicada à Mocidade Portuguesa (cuja analogia com as organizações juvenis de Hitler e Mussolini não deixa de verberar, enquanto «preparação de uma camada jovem para uma guerra brutal e estúpida») fala-nos nos Armazéns Zé Diogo (que só os muito antigos e raríssimos tripeiros… hoje recordam), representante do pronto-a-vestir das fardas e equipamentos dos «anos de “marcar passo”». Através das peripécias sofridas nos cursos de graduados e dos colegas neles reunidos surge-nos espécie de ajuste de contas com esses tempos em que – como diz – «os malandros se encobriam uns aos outros». No entanto, apesar da visão distanciada do tema, recorda os amigos que com ele alimentaram as fileiras dos que, não sendo apoiantes do Regime, tiveram de suportar os anos da «instrução para-militar à semelhança das juventudes hitlerianas» (e que a minha geração – em período subsequente – teve de aguentar já com alguma distensão), no período agudo da ascensão do nazi-fascismo.

Nestes dias, apesar de tudo, cheios de descobertas, é evidente o significado no património pessoal do cronista, da inesquecível Escola de Faria Guimarães que, nas páginas deste livro, é evocada e conhece justa consagração pedagógica e social pelas mãos de um dos seus mais distintos e distinguidos alunos. E recorda as festas de fim de ano pelas quais se pelava o Director, dado o «barulho que produziam» na cidade, através da imprensa. E alude ternamente ao auto então representado. Parecendo escrito por «um Camilo ou um Júlio Dinis», chamava-se “Rosas para N.ª Senhora” e, 60 anos volvidos, ainda recitava os versos que aprendera (formidável memória narrativa, não só visual como também verbal, e especialmente afectiva): «Num amor simples de aldeia / Quando uma paixão se ateia e duas almas inflama / Até seus próprios pecados de ternura rendilhados / Parecem filigrana», etc. A propósito da festa, fala-nos ainda do Escultor Mário Truta, artista sensível, completamente olvidado e que, tal como outros nomes desaparecidos no buraco negro da ignorância, o Professor não deixa para trás nem se esquece de trazer à colação. E, nalguns casos, de enaltecer.

Do seu conhecimento carregado de minudências de uma cidade a que, sendo estranho, ficaria indelevelmente ligado, ressaltam pormenores que só os estudiosos mais atentos reteriam. Em “Os Anos da Bela Vista” descreve-nos o quotidiano dos meios mais pobres, com os «protectores» dos sapatos soando «nas ruas e passeios calcetados». E a falta de antibióticos sentida nos anos da II Guerra (só apareciam depois dela e, por isso, «só no Porto» a tuberculose «ceifava muitos jovens todos os anos»). E comenta os anos das descobertas das páginas dos clássicos que ajudavam a abrir os olhos para o mundo real ou aventuroso e tornavam muitos jovens, como o nosso cronista, leitores compulsivos das «bibliotecas dos pais dos amigos».

E não falta a lembrança do S. João do Porto (o «meu dia grande», como confessava). A noite em que o maior prazer, quase desportivo, era apanhar os balões que, às dezenas, caíam na Belavista e, depois de «reciclados», voltavam a ser mais leves que o ar, voando ao sabor do vento. «Mas também aprendemos a construi-los», anotava e, anos mais tarde, ensinaria tal «ciência» aos alunos da Gomes Teixeira e da Ramalho Ortigão – escolas dos seus Estágios, às quais dedicou parte significativa da carreira de Metodólogo. Atento à grande voga tecnológica da época – a Rádio – leu o anúncio no “Janeiro” da National School, de Los Angeles e frequentou o curso, por correspondência, que a mesma propunha. A partir dele, conheceria uma das figuras inesquecíveis que todos encontramos vida fora: o snr. José Ferreira da Costa, ferroviário reformado da C.P., morador em Campanhã e construtor de locomotivas.

E fala-nos mais do Porto. Do snr. Eugénio sucateiro, de S. Roque da Lameira, onde começou a comprar as peças iniciais das suas aventuras no campo da mecânica. Incluindo a primeira bicicleta construída, naco a naco, a partir do aproveitamento de materiais da sucata e da utilização de verdadeiros, adquiridos, pouco a pouco, tostão a tostão, na Rua Cândido dos Reis, na época empório dos amantes do ciclismo. E, anos corridos, fala-nos dos passeios velocipédicos, com companheiros surpreendentes: Júlio Resende (verdadeira revelação!) e o Pintor francês Pierre Dubois. E os passeios a três, em Ofir ou em Mira, com D. Rosa pedalando e a filha, Maria João, na cadeira expressamente construída para ela no quadro da «pasteleira» (assim designavam, no Burgo, as bicicletas dos amadores).

Para o Professor, «a tropa» significou os tempos da Guerra. Começou na inspecção no Quartel das Taipas («Apto para todo o serviço») e seguiu-se Tancos, no «Colete Encarnado», edifício de suplícios sob um calor infernal: «Tinha sido destinado à cavalariça (…) mas passou a ser para os soldados que, na tropa, valem menos do que os cavalos», comenta numa apreciação amarga daquele ambiente em que «as humilhações foram umas a seguir às outras». Nesse tempo da Guerra assistiu à chegada dos “Spitfires”, os fantásticos aviões que permitiram à Inglaterra vencer a batalha dos ares. E a descrição que nos faz dos exercícios com fogos reais e toda a participação dos recrutas nos acontecimentos (que até deram um filme da Tóbis Portuguesa!) não poderia ser mais palpitante. E compreendemos que o homem sensível, o artista na mais pura acepção do conceito, se transforma, aos nossos olhos, no exemplo do soldado pronto para tudo, que terminaria a carreira não na frente da batalha (que, felizmente para o país, não houve) mas no Quartel de Engenharia 1, também chamado do Bom Pastor, no Porto.

No entanto, ainda aqui, não faltaria a alusão contundente ao «Tenente Kaúlza», «germanófilo» que viria a tornar-se sustentáculo do Regime, que, bem ao modo da mentalidade militarista, apelidaria o grupo dos futuros artistas como «as meninas das Belas Artes». (Desse grupo fazia parte um dos mais notáveis arquitectos portugueses, João Andresen, prematuramente desaparecido, gorado vencedor do concurso para o Monumento de Sagres, projecto notável rejeitado por Salazar e que, a ser construído, prestigiaria Portugal internacionalmente). O período de aluno da ESBAP, descrito nas crónicas «O Curso», «As Verdades do Prof. António Brito» e «O Modelo», são outras oportunidades de compreensão do ambiente artístico do Burgo e do clima vivido naquela Escola pouco cara à Ditadura, que infiltrava os seus informadores «no meio académico», onde «os empregados (…), denunciavam alunos» e a «livre expressão era punida, por vezes, com acções ridículas» (A um homem de carácter, tais situações repugnavam, como no-lo desvenda em episódios caricatos reveladores do tempo de angústias, censuras e auto-renúncias subjacentes aos relatos.) Enfim, para não puxar demasiado a brasa para a minha sardinha, insisto em dizer que nestes “Contos Vividos” existe um rico manancial de vivências e informações indispensáveis à compreensão de um período portuense ainda hoje pouco documentado. Registos fiáveis de quem experimentou as múltiplas facetas do clima social e artístico de uma cidade movendo-se contraditoriamente entre a modernidade e o conservadorismo, a resistência e a subserviência, a prosperidade e a pobreza. Até nisto o Professor, nas suas crónicas, presta um serviço relevante ao Porto – urbe que afinal, e como nos confessa, tanto o marcou e tão significante seria para o seu carácter e afirmação profissional.

4.- A imagem que conservo – meio século decorrido – do Pintor João Martins da Costa é a da austeridade pessoal. Austeridade no rigor que colocava a si próprio e aos demais, e austeridade na postura do dia-a.-dia, traduzida em sobriedade e contenção. (Na crónica “Daí lavo as minhas mãos” é evidente a sua opção antitabagística.) Na quase humildade de um viver simples, pelo que traduz na escrita que nos legou, eu não hesitaria em falar de certa forma de Franciscanismo no seu modo de estar consigo e com o mundo, incluindo os elementos da Natureza – flores, árvores, rios, montanhas, animais. (Que, numa crónica repleta de humanismo, considera «Amigos de Verdade».) Para apreender essa faceta, basta interpretar a relação estabelecida com o «pisco, dos de peito alaranjado» que fez ninho no seu quintal, pois «conhecidos que já éramos». Seis anos passados, o pisco («ou um seu filho ou neto») lá continuava «fiel na sua amizade de sempre». E, neste panorama de empatia, surge o cão «Raposinho», «companheiro fiel e sempre constante». Ou a cabra branca, a «Cristina», que andava «sempre à volta da casa». Nos tempos do Porto, na Rua da Friagem, surgiria o «bonito passarinho azul-claro», de nome Lily. O «periquito lá de casa», que ascenderia à categoria de companheiro favorito do Jorge e certo dia «fez um voo para o desconhecido». Tão chegados a ele estavam que colocaram «anúncios nos jornais mais lidos do Porto». Sem sucesso. E remata o narrador na sua límpida filosofia de magoada (e arrependida) compreensão pelos ditames da Mãe Natureza: «A liberdade é um bem para usar com prudência», já que tinham «ensinado ao Lily apenas o caminho da sua janela sempre aberta, para ele e os outros pássaros».

E aparece a «Farah, uma dama gentil». Na crónica que lhe é dedicada, evoca-se, a par, a memorável Leitaria Primus, pois poiso do «meio intelectual portuense». Era frequentada pelo casal Martins da Costa e o criador de cães que lhe facultou o conhecimento da Farah – que mais não era do que a adaptação, para canídeo–fêmea, do nome da Imperatriz da Pérsia, Farah Diba! Morreu nova – digo, a bicha – e «foram muitas as saudades» que deixou… (Demonstrativa da postura perante os animais – grandes ou pequenos – a crónica dedicada ao seu cão é intitulada “Amor e Entendimento”.) Ao inglês Mister Symington, da família que continua a dar cartas no seio da colónia britânica do Douro, ficou a dever a descoberta e a aquisição da Farah. Para o recompensar de ter aceitado como pagamento uma pintura sua, ofereceu-lhe a paisagem da Ribeira do Porto, de 1972, «especial, produto de uma tarde de inspiração onde, em escassos 21 centímetros, estão contidos toda a nobreza, a majestade de uma cidade que me ficou para sempre no coração» (que melhor declaração de amor a um sítio poderia escrever-se?)

E encontramos ainda bem patentes as tão sentidas e importantes temporadas Espanhola e Italiana do Pintor que, pari passu, as abordava nas prelecções sobre a prática tecnológica da expressão plástica que lhe teria facultado a estadia nas Academias de Belas Artes de Roma e Florença – designadamente esta -, onde adquiriu a bagagem considerável para enfrentar as futuras encomendas com que enriqueceu o património artístico portuense através dos vários murais que nos legou. Numa linguagem estranha à nossa tradição académica – o fresco –, dela se tornaria paladino e seria executante maior (basta ver e admirar os painéis executados no Palácio da Justiça, nas capelas dos Colégios Brotero – se é que foi poupado – e Luso-Francês, nas Escolas Primárias da Constituição e do Monte Pedral, ou na que foi de Soares dos Reis e agora é de Turismo. Também decorou os cafés Embaixador e Garça Real (como ninguém pode ter a certeza do que se conserva em país onde inúmeras pinturas públicas foram destruídas – caso, no Porto, dos painéis de Coelho de Figueiredo, nos cafés Ceuta e Sábandeira e do fresco de Mestre Dordio Gomes, na Livraria Tavares Martins. Um destes dias hei-de passar por alguns locais que o Professor decorou só para ver se as pinturas sobreviveram. Mas não me admiraria que…)

Depois de mexer e remexer nas linhas e entrelinhas das crónicas aqui publicadas e se quisermos, a partir delas, tentar estabelecer o retrato do autor que, para além do talento narrativo, nos transmite as circunstâncias e os pormenores – e, até, confidências – de uma existência plenamente preenchida, desse retrato, que traços marcantes podemos entrever? Em primeiro lugar, a revelação dos sonhos cumpridos de uma infância rodeada de ternura. A infância numa família estruturada não na opulência e na prosperidade, mas num forte sentimento de pertença, coesão e, simultâneamente, de partilha. É isso. Das suas palavras desprende-se a sensação de uma infância compartilhada com os parentes próximos e os amigos que, ao longo dos textos, vão surgindo para logo sumirem. Naturalmente, pois, como sucede com todas as infâncias, os companheiros, salvo um ou outro, não são para sempre. Mas a família, sim. E talvez esse cimento, esse alicerce constante nos anos em que, como dizia Raul Brandão, aprendemos tudo quanto é importante, tenha contribuído para a assunção de princípios e atitudes que, ao longo do tempo, moldaram e acompanharam a personalidade do Professor. E, em segundo lugar, este livro traça o perfil de um homem, na sua circunstância, que em tudo se envolveu. Em todas as causas que, para ele, valiam a pena, no sentido de construir um mundo melhor, através do mais poderoso instrumento de Progresso e Redenção chamado Instrução (ou chamem-lhe Cultura, se quiserem). E chamado Respeito – comprometimento ou coerência. E chamado Denúncia (especialmente dos mitos anunciados pelos profetas mentirosos que, há não sei quantos mil anos, enganam o povo). E chamado – sem ser necessário fazer-se vegetariano, ecologista e, ainda menos, Verde – Dedicação ao Ambiente, na concordância com as regras que sublimam da Natureza a sua feição mais essencial ao destino do Homem.

Porque João Martins da Costa empreendeu tudo isso e, mais ainda, personificou o lutador incansável pelos valores da autenticidade e da exigência (ainda que acobertada na singeleza), da Justiça e da Honradez. Do conhecimento. Contra a ignorância, a cupidez, a arrogância e a subserviência. Um idealista  transparente na defesa de princípios e na busca incessante pelo sentido maior da vida em sociedade. Que tanto homenageava os jacarandás como censurava a «burrice» das construções que considerava «criminosas». Que elogiava, com carinho, aquelas «mulheres da sardinha: «secas, mirradas de carnes, só com pele e osso, mas com almas e garras de autênticos gigantes». As mulheres que «saíam de Penacova manhãzinha cedo, muito antes do nascer do sol e, a passo ligeiro, passavam a Cheira, direitas à serra de Lorvão». Como, a seguir, cosmopolitamente, se ufanava de que «pintara como um maluco» em Toledo, Segóvia, Madrid, Escorial, e como gastara as solas a calcorrear Roma! Um homem que estabelecera como referência o princípio de que o «small is beautiful», cultivava o primado do local e considerava Penacova seu território de eleição, escolhendo-a para habitar nos últimos anos da sua presença entre nós. Que tanto se enternecia com o seu pomar como com Veneza e, do recanto de exílio interior a que se remetera, em jeitos de explicação, escrevia: «Na minha vida aquilo que tem subsistido, e que ficará comigo, são as recordações.»

Depois de ler este livro de confissões de um homem livre, acrescentei mais um erro ao meu currículo (ou – quem sabe? – juntei-lhe um pecado) e aos muitos que já cometi. Foi o de na arrogância dos vaticínios sobre a lonjura de tempo que pensamos ter pela frente e, por tal razão, podemos adiar ou deixar para amanhã, acções que deveriam ser imediatas, não ter aceite, a correr, o convite que o Professor me formulou em 1992: «Se um dia vieres para estes lados, gostaria que viesses aqui ao meu atelier passar uma tarde (e por que não almoçar também?) para em comum saborearmos este bocadinho de rio e serra que sabe bem ver. E cá fico à espera. Telefona ou escreve antes a dizeres quando vens.»

Querido Mestre: aqui me penitencio. Tarde de mais concluo pelo sem sentido da minha enorme falta de inteligência. Ou talvez pelo desamor de não ter ido logo a Penacova. E ainda mais porque, em Dezembro de 1996, quando telefonou, pela última vez, a propósito do meu livro “Porto: a cidade é um sentimento”, de cujo lançamento tivera notícia pelos jornais, voltara a insistir na visita e no almoço na sua paisagem favorita. Que desperdício!

Espero que, tal como sucedia com os nossos atrasos e impertinências naquele ano daquela disciplina cujo nome esqueci, me perdoe o feio gesto, a desatenção, a ingratidão, a incoerência de não ir visitá-lo para poder mostrar-me a terra a que dizia pertencer «de alma e coração». E, para o compensar da minha ausência, escrevi estas palavras parcas e despretenciosas. Muito aquém das que merecia. Fiz o que pude para lhe expressar o quanto o admirava como cidadão íntegro. Daqueles que fazem muita falta neste país. Espero que lá nas altas paragens do Olimpo dos artistas onde paira, no seio dos deuses, aceite as minhas desculpas e veja na sinceridade destas linhas a marca do afecto que lhe devia e a gratidão que, a esta distância, continuo a dedicar-lhe. Assim o recordo. Até porque, como também escreveu numa das suas crónicas: «a vida, mais do que viver, é recordar.»

Prefácio de Helder Pacheco

 Porto, em Maio de 2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

2 Respostas to “Um artista e cidadão na sua íntegra humanidade”

  1. Boa tarde, só hoje tive oportunidade de ver a sua msg.
    Caso ainda pretenda contactar o Prof Helder, poderá fazê-lo através o email helderpacheco.porto@gmail.com
    Cumprimentos.

  2. Dr Helder Pacheco, fui sua aluna há muitos anos e gostava de contactar consigo novamente, estou a reabilitar um prédio na R. de Sá da Bandeira e queria conversar consigo sobre isso, por favor contacte-me pelo email

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