Um despautério

Desta vez exorbitaram. Em tempo de aperto do cinto, gastaram, sabe-se lá quanto – contra as ordens do FMI e da UE -, em foguetes, estouros, efeitos pirotécnicos. E até cachoeira na Ponte da Arrábida. Espectacular. Em vez de austeridade (ou pobreza imposta pelos ricos?), abalançaram-se a despender milhares num festival de fogo!

A gente da Afurada tira a barriga de misérias, compensa-se e redime-se das frustrações, perigos e incertezas de quem ganha o pão no mar e de quem o espera em terra. E organiza-se para fazer a Festa. A S. Pedro. À antiga. Com música, comes-e-bebes, atracções, divertimento, contentamentos. Alegria colectiva uma vez por ano, à tripa-forra. Com fogo. Cada vez mais empolgante, num espectáculo de cinco estrelas. Com lugar no «ranking» do amor à tradição da romaria com a fé e os sentidos.

Mas desta vez abusaram. Em tempo de assaltos burocrático-tecnocráticos ao que nos resta de certa apetência da felicidade. Em tempo de angústias e renúncias impostas pelos funcionários de um espaço sem alma, chamado Europa, gastar as horas e o dinheiro em fogo de artifício não pode ficar impune. Quando lhe disserem, espuma o Wolfgang Schäuble. O Pierre Moscovici atira-se ao ar e exige sanções acrescidas. O trabalhista por acidente Dijsselbloem destina-nos à fogueira dos novos Inquisidores. E o que mandará vir, para nos expurgar do pecado da teimosia de não querer ser cinzento, o que virá do manda-chuva do FMI chamado Subir Lall?

Afuradenses indomesticáveis que resistis à ditadura de Bruxelas e insistis na euforia comezinha de foguetes e estouros, preparai-vos. Para quem quer tudo igual e asséptico do Atlântico aos Urais, a vossa rebeldia tem de ser punida. Austeridade a dobrar. Ou – adaptando ao caso o que dizia o outro – «à morte e às sanções» ninguém escapa.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 06/09/2016.

 
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