De Um Certo Jardim Fora do Tempo

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Ó Paraíso! O teu rival é este lugar.

           Bispo Hildebert de Laverdin (De Ornatu Mundi, séc. XII)

1 . Sim. É este lugar mágico inventado pela Maria Dulce Barata-Feyo e desvendado na sua pintura. É este jardim feito de transparências , de uma realidade sem tempo – ou fora do tempo – evocando mil fantasias inebriantes. Utilizando o acrílico leve e delicadamente  como que aguarelando contornos indefinidos , sugerindo tudo quanto a destreza da nossa polissemia (ou o plural dos nossos sentidos) permita imaginar.

Desafiando-nos para a indagação, sugerindo-nos o não previsível. Jogando às escondidas entre o que nos parece mas, se calhar, não é, o que poderia ser e o que realmente  pretende representar, resta-nos o percurso pelos caminhos do imponderável e poético – último refúgio onde se projectam o espanto e a fantasia. Ou a surpresa. No descobrimento das formas que, parecendo habituais e já nossas conhecidas,  escondem o mistério e a ambiguidade do inclassificável.

2 . Posto isto , pelo menos ao nível  do meu entendimento (e confesso-me cansado de muita banalidade que por aí campeia disfarçando a incompetência e a preguiça), não consigo encontrar nas taxinomias costumeiras, o enquadramento, a encadernação teórica para esta pintura. Não que isso me interesse particularmente e, por tal razão, não me vou pôr a adivinhar nem a escola, nem o sistema de signos, nem as influências, nem a estética implícita. Nem sequer a analogia ou o parentesco com o que quer (ou quem quer) que seja. Nada. Até porque – e insisto nesta assumida subjectividade da apreciação –, aos meus olhos, a pintura aqui exposta não carece de classificação. Aliás,simples pecador me confesso: não sei como e onde a filiar. Não sendo «curador» (outrora, no século passado, dizia-se «comissário») das artes aqui declaro humildemente não encontrar o déjà vu onde situá-la. Mas torno a insistir que pouco me importa tal facto. Prefiro apenas ver. Deliciar-me. Extasiar-me com estas nuances insuspeitadas que mais parecem uma paleta de experimentação manipulando os pigmentos como, no passado, faziam os artesãos-artistas. Descobrindo harmonias, misturando cores de modo subtil, inventando tonalidades que ainda ninguém sonhara.

3 . Prefiro, portanto, apenas ver. Usufruir da espécie de jardim secreto, saído da imaginação e do sonho da Maria Dulce e escondido no tal lugar que o Bispo Hildebert considerava o Paraíso. O Paraíso especial, diferente. Construído no pormenor quase milimétrico da representação do invisível como se observada ao microscópio . Na exaltação da pureza. Da absoluta pureza. Do requinte quase sublime facilitando a compreensão da frase de Jorge Luís Borges: «observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente».

4 . Eis as palavras. As palavras exactas para exprimir o sentido incomparável que nos inspira a contemplação da pintura de Maria Dulce Barata-Feyo: beleza e felicidade. Na justa proporção da quietude de um mundo perfeito, tranquilo, apesar de inabitual, poético apesar da aparente contradição com o exposto dos gestos repetidos até à exaustão – salvo quando avultam as manchas cromáticas, especialmente e, talvez não por acaso, em azuis – definindo uma composição que nos surge adivinhada. No resto tudo é trabalho e persistência quase infinita na superação da facilidade, do minimalismo ou do grotesco que, não raro, escondem a ausência da oficina. A ausência de domínio daquilo que, apesar dos pós-modernismos apressados, continua a constituir a espinha dorsal do estado das Artes : a base – ou, citando Eça, a basezinha – chamada saber desenhar.

5 . E a Maria Dulce sabe. Porque tudo isto, toda a ordem  profunda e escondida   do encantamento aqui presente é, vendo bem, excelente, minucioso e implícito desenho. Que, para lá do que não explica, nos revela um universo de formas sugerindo tudo o que nele podemos pressentir. Do infinitamente grande (como os bosques enigmáticos onde crescem as árvores e as flores) ao infinitamente pequeno (como a natureza e a vida vistas em laboratório). Tudo vale. Tudo se oculta e tudo é apetecível. Tudo nos surpreende e acalma. Num registo intrigante de certa, melancólica, nostalgia escondendo (ou, quem sabe, disfarçando) a alegria essencial. A afirmação essencial de uma criadora de imagens surpreendentemente (ao menos para mim, que, ao vê-las, me senti como se o céu ficasse, entre nós, na terra) plausíveis e serenas.

Como se, ao nosso redor, a violência não existisse e a fealdade fosse uma ilha deserta, perdida na distância, a pintura, diáfana e intemporal de Maria Dulce Barata-Feyo vem justificar, uma vez mais, e, terminando como se começa, falando do que nos revelam as palavras de Borges: «Não há um instante que não possa ser a água do Paraíso.». Ou, se quisermos, como se a vida fosse «um longo rio tranquilo». Não mais do que isso.

Helder Pacheco

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~ por Helder Pacheco em 13/12/2016.

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