A Voz

No sereno anoitecer de 8 de Junho de 1992, como se fosse para o futebol nas Antas, estacionei o carro nos Combatentes a caminho do Estádio dos deslumbramentos de ver jogar o FCP. Mas não era esse o programa. Não havia bola mas cantoria. E que cantoria, a ouvir «a Voz» a quem os americanos chamavam “The Voice»: Frank Sinatra!

Por muita volta que desse à imaginação, jamais pensaria assistir àquele espectáculo, da bancada poente do Estádio. Pertencendo à categoria agora dizimada pela austeridade, contentei-me com a Geral, do pontapé nas costas. Quem podia pagar o luxo sentava-se em volta de mesas (onde não faltavam candelabros), no relvado, recriando os clubes nocturnos nova-iorquinos. Classe é classe! A «Voice» entrou no Estádio num Cadillac gigante, condizente com o seu estatuto, que o levou até ao palco, debaixo da Arquibancada, onde o esperava uma orquestra quase sinfónica.

O Frankie – embora acusando a idade – emocionava. Ainda era ele. A voz inigualável que, como dizia numa canção, nos fazia «voar até à lua». Ou – noutra canção – nos «fazia sentir tão jovens»! (traduzindo para não inglesar demasiado). Depois de swingar como só ele fazia, atacou o “Strangers in the Night” e até o cimento da bancada quase rachava de emoção. Muitos olhos da classe média romântica, que me rodeava, embaciaram e quando, depois dos encores, o «old blue eyes» se despediu, correram lágrimas. E houve acenos. Para sempre. No centenário da «Voz» agora comemorado, é bom lembrar a sua passagem pelo Burgo, no âmbito de uma Digressão Europeia iniciada em Londres, no Royal Albert Hall, seguida de Barcelona e Atenas.

O Porto integrava o itinerário das grandes figuras da música: «Nada mais do que o melhor», como cantava o Frankie. (Quando dizem que a cidade está a ficar cosmopolita, rebolo-me a rir!)

©helderpacheco 2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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