Adeus passado

Deitar o Ano Velho fora significava a última folia, o desfazer do ano. No Bairro da Sé, simples e habitado, a despedida era feita a bater colheres em panelas, tachos e outros instrumentos de percussão caseira. Com os de alumínio, particularmente sonoros, o bairro estridulava. E dos cais do rio Douro, onde os navios estacionavam esperando as cargas, subiam, ensurdecedores, os toques das sereias.

O mesmo sucedia com os vapores ancorados ao largo, aguardando para entrarem na barra ou em Leixões. Do mar, à meia-noite, chegava o som cavo das grandes embarcações com bofes de dinossauro. E, na marginal de Sobreiras, ainda não reabilitada, a barulhação era diferente. Para evitar que os automóveis derrapassem e fossem tomar banho ao rio, a Câmara colocara «rails» metálicos de protecção. Era neles que os moradores batiam com martelos, maços de madeira e quanto fosse contundente. Faziam escarcéu acusticamente grandioso. Davam nos ouvidos.

Barulho, champanhe, votos solidários, fogo preso, bailes improvisados e cantares de Janeiras faziam o cardápio da função desta alegria anual dos pobres. No limite do cosmopolitismo de base, as colectividades dos bairros encarregavam-se das reuniões dançantes. Eram o contraponto dos «réveillons» encadernados a primor, nos cinemas e clubes. Em todos, ou quase, «reveillonava-se» como se fosse carnaval, até de madrugada. Ao Ano Novo.

E a cidade não era então líquida, mas densa. Cheia de urbanidade e não de suburbanidade. Espontânea, previsível, igual a si própria. Copiando-se todos os anos nas ingenuidades de graça e humanidade. E por ela me fico. Além da Bem-Aventurança aos resistentes que ainda me lêem, desejo que o 2017 traga ao Burgo a reconquista da sua dignidade e do seu carisma. Para o vivermos e, depois, podermos mostrá-lo aos turistas.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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