Afinal enganei-me

Numa frase à nossa moda, o escritor brasileiro Érico Veríssimo escreveu: «Os portuenses não cultivam o salamaleque, não costumam dançar minuetos.» Na medida das minhas posses, pratico o menos possível tais danças de salão. Nessa tal condição, não me custa dar a mão à palmatória. Dizer que não fui justo e evitar o pecado da ingratidão. De «Ser cão que não conhece o dono» (salvo seja).

Reconheço, portanto, que me enganei quando, em crónica de 6.8.16, evocando S. Tomé e o seu «ver para crer», dizia só acreditar que os quadros de Miró viessem para o Porto se os visse aqui fixados (expostos não me chega). E que, para isso, teria de acontecer milagre superior ao de Ourique. Afinal, apesar de um imperialista ter bolsado enormidades contra a vinda dos Mirós «que no Porto teriam pouco público» (segundo me contaram, pois não li a alarvidade), vieram. E ainda bem.

Desta vez «os esbanjadores de Lisboa» (Torga dixit) não conseguiram impor a sua fúria monopolista. Não conseguiram acrescentar mais um trunfo ao seu estômago devorista dos recursos do país. Não conseguiram abarbatar um património essencial à repartição da cultura pelas províncias. Exulto com isso.

Foi engano ou os ventos da História bufam noutro sentido, favorável a um conceito digno de uma democracia decente – repartida, justa e mais igual na sua integridade? Estarei sonhando e os Mirós ficam mesmo? Se assim for, louvo os responsáveis pelo gesto. Dou o braço a torcer. Estamos tão pouco habituados a ver o Terreiro do Paço ser magnânimo que até custa a acreditar.

Peço, pois, desculpa aos senhores que mandam nisto, mas têm de compreender o seguinte: já Sá de Miranda (1487-1558) dizia «não me temo de Castela / donde inda guerra não soa / mas temo-me de Lisboa / que ao cheiro desta canela / o reino nos despovoa.»

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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