Andava a remoer

Firmino Pereira escreveu: «era o Porto uma terra jovial, risonha e de uma picante e pitoresca originalidade. Mas, um dia, de repente (…), caiu sobre a cidade uma alagadora bátega de civilização e toda a gente ficou encharcada. Essa formidável bátega estragou tudo. O Porto, alagado em tanta civilização (que vinha de Paris em caixotes e encomendas postais) enfiou, embatucou, murchou (…) perdeu igualmente o paladar».

É uma crítica à ânsia de ser cosmopolita. A todo o custo. Ouve-se, por aí, a torto e a direito.. Como se a cidade não o fosse há muito! Quem assinou o 1.º tratado comercial com a Inglaterra; fez a mais radical e moderna de todas as revoluções, em 1820; proclamou a República em 1891; inventou o cinema português e por aí fora, é cosmopolita por essência. Todavia, as ganas de mostrar o verniz escondem o tamanco, disfarçam a vista curta e confundem o epidérmico ou as modas com o verdadeiro conhecimento do mundo. E, de repente, deixam-nos perplexos.

Remoendo se devo falar no assunto, aqui vai. Ponto prévio: 1- em cidade liberal, cada um tem o direito de ouvir e falar do que quiser. 2– de frequentar o que lhe interessa. Mas acontece que em Outubro actuou na Casa da Música o, porventura, maior guitarrista da actualidade: John Pizzarelli. Cantor e compositor, devolveu às novas gerações os clássicos do Jazz. Além do quarteto habitual, actuou, em todo o mundo, com grandes orquestras.

Veio ao Porto apresentar o seu álbum “Midnight Macartney”, reinventando as músicas do ex-Beatle. Pois, cosmopolitissimamente, a Sala Suggia ficou meia vazia. E, embatucado com o que o John há-de dizer de nós, pensei: chiça! Com tanta civilização, o Porto «perdeu o paladar» da categoria. Ou anda a dormir, ou, como diria meu pai, «há muita sífilis» por aí a fingir-se moderna.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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