Ciência política

Trago no bolso um canhenho onde anoto o que me vem de fora e de dentro, de inventar. É um registo de coisas passadas ou de inspirações futuras. E, como os meus espaços privilegiados de audição são os autocarros, eis a «pescaria» de uma viagem no 207: «Foste trabalhar? Não, fui passear. Sòzinho? Não, o autocarro levava muita gente.» Depois, entoado por uma passageira: «Quem canta, seu mal espanta / As mágoas do coração / Já cansei minha garganta / As mágoas ainda cá estão.» E outras demonstrações do povo a falar. No seu melhor.

Mas o mais profundo estava para vir. E veio quando dois passageiros encetaram uma conversa sobre ciência política à moda de Lordelo. Dizia um: «Estes tipos só sabem dizer mal.» E o outro: «No Governo atiram-se à Oposição. Na Oposição atiram-se ao Governo.» E «Dizem cobras e lagartos uns dos outros, conforme estão em cima ou em baixo.» Ao saírem, nas Condominhas, concordaram «ninguém se entender» e «todos quererem mama.» E o que já não ouvi. Pus-me então a pensar onde tinha lido isto. Mais ou menos.

Procurei e encontrei. Em Ramalho, “As Farpas”, 1874. Assim: «As folhas ministeriais [leia-se, oficiais] diziam: “Vejam como o talento pulula e como a arte floresce sob a sábia administração de um governo rasgadamente civilizador e amante do fomento e da ordem. A oposição é uma besta!”. Os periódicos oposicionistas obtemperavam: “E todavia muito mais rica (…) seria a Vestimenta do vosso mui amado rei, se à frente dos negócios estivessem homens que falassem menos no fomento e na civilização e cuidassem mais na administração da riqueza pública. O governo é um burro!”»

Conclusão: como em Portugal a História se repete, os candidatos à carreira política deviam ser obrigados a ler “As Farpas”. Ou a andarem de autocarro. Para melhor serviram o país.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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