Da classe média

A minha amiga D. Etelvina (nascida e criada na Ribeira) disse-me uma vez a, porventura, mais bela definição do papel da imprensa: quem escreve nos jornais deveria ser a voz de quem não a tem».

Concordo. Embora, já mordido pelo relativismo actual, me ocorra a dúvida sobre se a voz da gente comum, enfim, do povo, interessa para vender jornais. Ou seja, se o público gosta mais de ler a opinião fabricada segundo as encomendas, ou confrontar a realidade quotidiana. Não sei.

Mas, como a realidade nos cai logo em cima, vou expô-la à luz das palavras cruas e sem atavios. A propósito da minha crónica sobre o IMI, escreveu-me um leitor com meio século de JN, dizendo que, relativamente a Abril, «o mês de pagar o dito», as contas dele eram assim: pensão mensal 488,43€; renda de uma casa da esposa 200,00€. Receita: 688,43. Despesa obrigatória: IMI da habitação própria 226,58; IMI da casa da esposa 131,75; luz 73,98; água 16,90; farmácia 102,35. Total 551,56. Sobram para o resto (ou seja, viver) 136,87 Euros. Acresce um filho licenciado e desempregado.

Indígena da Vitória, pouco dado a subtilezas metafísicas, gostaria de, sobre o assunto, colocar três questões: 1.º Se acham justo que um cidadão (pelo que sei) íntegro, depois de 60 e muitos anos de canseira, aos 80 e tais, tenha de passar por situações destas; 2.º Se acham bem que certa classe média suporte tão duramente a carga de sacrifícios imposta por anos de desvarios, corrupção e incompetência de quem transformou a democracia num negócio de compra e venda; 3.º Se não é altura de dizer basta, já chega! Como defendeu Vitorino Magalhães Godinho: «Portugal não podia continuar a viver nos moldes antigos. Era preciso energia, uma política firme, lúcida, perseverante, coerente, que não cedesse perante o tumulto e a desordem».

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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