De Paranhos

No ano distante de 1990 – já passou uma eternidade! -, o meu amigo João Fernandes, que iniciava em Serralves a trajectória à conquista de Madrid, telefonou-me para o acompanhar a uma surpresa. Lá fui, e a surpresa era em Paranhos, na bonita moradia ajardinada, do largo fronteiro à Igreja, ainda sem a VCI a estragar tudo.

Ali vivia (e vive) D. Maria Cândida Maia, que nos deu a provar pela primeira vez os doces de Paranhos. Os autênticos. Segundo a receita de uma tia-avó recolhida das doceiras oitocentistas, que os vendiam nas romarias do Burgo. Fórmula e confecção haviam-se diluído no tempo e assim foram recuperadas. Além de uma barrigada de coisas boas, de lá trouxe a receita que passei a escrito.

Sem resultado. Salvo uns tantos amadores das raízes, não sendo eruditos, os doces paranhenses não interessaram a ninguém. Continuaram esquecidos. Até que, em 2015, um grupo bairrista, sob a égide do Rancho Folclórico de Paranhos, criou a Confraria dos Doces da sua terra. O objectivo é divulgar um património da doçaria tradicional, defendendo a especificidade e preservando a autenticidade e qualidade.

Desde aquela tarde inesquecível na antiga “Casa do Poço”, fiquei ougado e freguês dos doces de Paranhos. Estranhos, vernáculos, elementares, sabem aos gostos ancestrais da canela e da erva-doce. E a campo. E a povo. Bem feitos, são uma experiência de diversidade no pronto-a-vestir actual.

E, numa cidade que bate recordes como destino turístico, bem poderiam constituir mais uma oferta cultural no apego à identidade do Porto das aldeias e das Festas. O desafio está em torná-los acessíveis ao público. Fazer deles um atractivo. Uma curiosidade. Uma diferença. Transformá-los noutra marca tripeira «Tão doce como os doces de Paranhos» (como se dizia às raparigas nos jogos amorosos).

©heldwerpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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