Do País estrangeiro

Andou no meu bairro o homem da flauta pânica. Tocando. O som atravessava os interstícios urbanos e chegava-nos, dum outro mundo. Dum outro tempo e doutra civilização. A da convivência, ao nível do rés-do-chão, quando todos se conheciam e não prescindiam da visita da padeira, da leiteira, da peixeira, da lavadeira, da farrapeira, da mulher da esfrega, do limpa-chaminés, do cobrador das associações, lutuosas e clubes. E do carteiro. A humanidade batia-nos à porta.

O homem da flauta pânica anunciava-se à distância, na estridência musical que o distinguia dos demais pregões. Era o amolador de facas, tesouras, navalhas e canivetes. De quanto cortasse. E reparador de guarda-sóis (ou guarda-chuvas), especialista em varetas.

O homem da flauta pânica é espécime raro. Um vulto perdido na paisagem, mas não a que lhe dava sentido, pano de fundo e cenário. É avis-rara. Recordação. Lembrança da cidade amável, significante. A cidade da cultura das ruas. Comunicativa, face a face. Dos sinais não estereotipados. O homem da flauta pânica pertence ao mesmo mundo, em vias de extinção, dos cauteleiros (ainda param, um ou dois, em Sampaio Bruno, apregoando a Sorte Grande desta semana). São os últimos pregoeiros. Os restos de um passado perdido na distância que, em cada dia, nos separa daquele (citando Hartley) país estrangeiro onde as coisas sucediam de maneira diferente.

Da próxima vez que o homem da flauta pânica ande por aí, a anunciar-se e a pedir que alguém lhe dê trabalho, tenho de arranjar o que quer que seja para o ajudar a ganhar o pão. O problema é que, com os cortantes de cerâmica, já não tenho em casa facas à antiga. E os guarda-chuvas das lojas dos chineses partem, deitam-se fora e nem dão para consertar varetas. (Pobre, amolador, solitário, esperando a redenção.)

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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