É hoje

Acertando a crónica neste dia 24, parecia mal e não ficava bem ignorar a véspera de Natal. Até porque, para mim, que carrego às costas a infância portuense, o Natal continua a ser a época mágica do sonho, da esperança e da fantasia. Da celebração.

A época de todas as doçuras. Por dentro, nos anseios de Paz, de um país mais fraterno e dos votos de felicidade formulados a quem se conhece (e, para sermos coerentes com o tempo, a quem não se conhece). Por fora e por dentro, no que se vê e dá para ougar e, depois, se saboreia até à última garfada ou colherada: rabanadas com molho, aletria, doces de bolina ou de chila, formigos e bolo-rei. Os clássicos do Burgo, sem fusões nem derivações pós-modernas. E doçuras só por fora. Só de ver: extasiar-se a gente com as luzes da cidade, na árvore grande, azul e branca, reflectindo-se no tanque da eira da Avenida. Luzes que abrilhantam os olhos e enchem a alma (ou chamem-lhe o que quiserem, mas, pelo que vejo em algumas casas nos afãs de enfeitar a Árvore, montar o Presépio e esmerar-se na Consoada, no Natal a alma ainda existe).

Sem dar por isso, saiu crónica pela Nomenklatura cultural em absoluto considerada pirosa. Ainda assim, carregando na provocação, insistirei em falar do Presépio. O Presépio é – como hei-de dizer? – um caso de limpeza interior: tirar as figuras das caixas, fabricar as montanhas, construir uma cidade de cenário, alinhar os reis-magos, os pastores e o povo da Jerusalém de cá e, com dedos parecendo pelica, colocar a Sagrada Família no interior da cabana são actos de sentimento, gestos de ternura. Autêntica purificação. E eu, que nem sei ao certo no que acredito, até penso nestas coisas. (Enfim, hoje deu-me para a nostalgia. De qualquer forma, a crentes e incréus e a toda a gente de boa-vontade desejo Bom Natal.)

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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