Esta cidade

Acho o Porto cada vez melhor. Não por ter muita gente a falar estrangeiro, mas porque nele se está a passar muita coisa. Diferente, inesperada, buliçosa e, além do mais, interessante. Isto contraria a carta enviada a Júlio Dinis segundo a qual, aqui não se passava nada.

Aliás, nem era verdade, já que, no tempo dele, mês sim, mês não, no Burgo havia amotinações, revoltas, revoluções, barulhos contra a carestia da vida, o aumento dos impostos, o papel selado, a falta de pão, a importação de mobílias, o custo da justiça, a ladroeira dos governos, os preços de tudo, etc. Atitudes, sim, saudáveis de rebeldia e independência, dando conteúdo à frase de Ramalho: «O acto mais belo na vida do homem é a resistência ao poder.»

Demonstrando que na Invicta se passa o inusitado, recebi um SMS da minha farmácia da Baixa convidando-me para uma sessão de ioga no «Jardim das Oliveiras, nos Clérigos». E pensei: bonito nome e boa ideia (que não aceitei, porque, na minha idade, ioga só em privado). Depois de, durante anos, o sítio ter sido o Getsémani da cidade – lugar de angústia e desolação – vê-lo convertido metafórica (e literalmente) em Jardim das Oliveiras é, convenhamos, belo e romântico.

E como – graças a Deus – não se pode conhecer tudo, fui há dias, pela primeira vez, com a Francisca, subir ao Monte do Bonfim (antes dito das Feiticeiras). E, céus! Lá no alto, descobri a mais amorosa e cuidada ilha do Porto. Um espanto de asseio! Um mimo escondido! O que confirma, em absoluto, o crime contra a cidade (e os seus habitantes) que foi a destruição das ilhas do centro da urbe. E vem dar força e razão aos que, actualmente, pretendem desenvolver políticas de reabilitação das que existem e não de bota-abaixo, desterro e exclusão. Para vermos se o Porto fica, realmente, cada vez melhor.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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