Estou compensado

Há alguns dias que me apetece falar de futebol – coisa a que andava avesso há talvez dois anos. Mas para isso tenho de começar por citar meu avô Eduardo, a quem sempre ouvi dizer que os assuntos de família não são para discutir na rua. Por isso, não escrevi uma linha sobre o que andava cá por dentro. Desgosto, apreensão, tristeza e também saudades das tardes gloriosas de bom futebol e melhores resultados do meu clube.

Indígena da Vitória, básico e inculto em matéria de tácticas, estratégias, sistemas e opções, confesso contentar-me com ver o Porto ganhar. É um hábito, um vício, um defeito: gosto é de ganhar. Por isso, se calhar, como dizia o meu amigo Melo, não sou desportista mas apenas portista. De qualquer forma também não morro, nem fico doente quando o Porto perde, o problema é que quem está habituado a ganhar gosta de perder com categoria. À altura da grandeza do clube e da cidade. De maneira que, lembrando-me do avô Eduardo, calei o meu desgosto durante os últimos tempos.

Desforrei-me agora. Fiquei compensado de todas as tardes de desilusão. De tudo quanto tive de ouvir (nas tevês é fácil resistir, temos o comando e calamos as provocações, na realidade não virtual é mais difícil) sofrendo silenciosamente. Redescobri a alegria de ver futebol bem jogado e o Porto a limpar o Roma sem angústias. Até os cachecóis e a bandeira do meu escritório, que sempre me acompanham, ficaram mais azuis. Só de ver o Porto jogar em Roma já ganhei, não só a eliminatória, mas a época toda. Regalo assim já ninguém mo tira.

Para bem desta cidade que, cheia de defeitos e contradições, é nosso encantamento e devoção, oxalá, Europa fora, o Porto-clube leve longe a fama e o proveito. Ganhar é preciso e, como diziam os antigos portuenses perante a adversidade: «o resto é sífilis!»

©helderpacheco2016

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
%d bloggers like this: