Falando do Bonfim

Por decreto de Costa Cabral (11.12.1841), seria criada a freguesia do Bonfim, com parcelas de Santo Ildefonso e Campanhã. Até então, as freguesias da cidade assentavam em paróquias estruturadas, o que não sucedia com esta e deu origem a que as más-línguas falassem de favorecimento do Governo às pretensões do Conde de Ferreira a tal efeito. Com ou sem cunhas, ali está.

E, não fora o preconceito de só contar como Património o Burgo velho e o Bonfim teria recursos apreciáveis: as pontes do Douro (como a Maria Pia), a Alameda das Fontainhas, o Prado do Repouso, a Biblioteca, a Igreja Matriz, o Museu Militar. O urbanismo da «pata de ganso» oitocentista construída em terrenos do Cirne. E muita da melhor arquitectura dos anos 20 e 30 do séc. XX. Da marginal do Douro às Antas, é um nunca mais acabar de categoria.

Mas o Bonfim também significa o território dos agires de certo bairrismo. Como o suscitado pela «estrada do pão», referência da Bonfinense Lourdes dos Anjos: «O carvoeiro trazia a carqueja e o carvão / Uma voz rouca fazia um pregão / Um rebanho subia a rua, / A sineta do eléctrico tocava, / E tornava a tocar / Uma janela abria-se devagar. / As soletas dos operários compunham o tom / O velho Fortinho, o engraixador / Dava brilho ao sapato do rico senhor. / O cauteleiro apregoava o número da sorte / De taxi, chegava a mulher de mau porte / No portal da ilha, estava a farrapeira, / Com papel e roupa velha que vendia, / Guardava o sabor amargo do pão que comia. / Uma cigana lia a sina na palma da mão. / Na esquina, o velho cego tocava acordeão. / Das mãos de minha mãe, a Adelaidinha, / Saíam os perfumes e os sabores / que pobres operários e ricos doutores / Iam procurar na sua cozinha. / Quando eu era menina, era assim, / que começava o dia, na Rua do Bonfim.»

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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