Honra aos Clérigos

Pelos anos 80, subi à Torre dos Clérigos em sistema artesanal. Na entrada, estava a porteira, mulher simples, muitas vezes rodeada pelos filhos. Esportulávamos 5 escudos e ela passava os bilhetes do acesso. E subia-se.

Subia-se pela negridão. Pisando papéis, pontas de cigarros e outras coisas. Tropeçando nos degraus, acendendo isqueiros para alumiar. Além da vista sobre a cidade, a Torre prestava-se para quase tudo – próprio e impróprio – e ia dando uns cobres, não muitos, à Irmandade.

Em 2012, frequentei o Arquivo dos Clérigos. E mais os esconsos do Hospital dos ditos, salas e salões, quartos e enfermarias. A sede da Venerável Irmandade de N.ª S.ª da Misericórdia dos Clérigos Pobres da Cidade do Porto e a sua Igreja. Percorrê-la era um exercício melancólico entre o terror (com ossários à vista e buracos no chão), o espanto (pela incúria e desolação), o desânimo (pela percepção do valor do espólio acumulado ao longo de séculos) e a repugnância (pelo lixo, os ratos, excrementos de pombas e vestígios de uma presença extinta). O absurdo de um património a caminho da perdição.

No ano da graça de 2016, a Irmandade dos Clérigos recebeu o Prémio Vilalba, da Fundação Gulbenkian, distinguindo a reabilitação da Igreja, Hospital e Torre. Numa operação arquitectónica e de restauro exemplar, a cidade reconquistou o seu ícone, convertido em pólo de actividade cultural e económica.

Só uma ideia dos visitantes: 1922 – 3 108; 1979 – 28 720; 1991 – 62 253; 2011 – 131 539. Em Julho de 2015 atingiu 1 milhão e, este ano, chega aos 2 milhões, passando de 3 para 11 empregos. Isto significa talento de bem fazer, categoria para converter o abandono em esplendor, sabedoria para ultrapassar as dificuldades e ganhar o futuro. A obra dos Clérigos honra o Porto e é exemplo para o país.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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