Mas é arvore

O título da crónica não é meu. Retirei-o de um escrito do Mestre da língua pátria João de Araújo Correia. Nele, verberava o comportamento dos nossos patrícios relativamente ao desprezo pelas árvores. E considerava-os arboricidas por natureza. Aliás, já no séc. XVIII, François-Marie Arouet, dito Voltaire, teria escrito serem os portugueses os maiores inimigos das árvores. Nem mais nem menos.

Se atendermos ao que se passa em matéria de incêndios florestais, não custa aceitar a classificação pouco abonatória do nosso instinto colectivo. Há, todavia, outros predadores. Insidiosos, anónimos e tão patológicos quanto os incendiários (muitos dos quais não são tolos, mas estúpidos). Os inimigos das árvores escondem-se, não raro, sob a candura da criança, o jovem prafrentex à procura de afirmação. Ou, simplesmente, representam o desprezo e a indiferença pela qualidade da vida comum. Ou a falta de instrução, educação e cultura cívicas.

Vem esta catilinária a propósito da árvore mais desgraçada do Porto. Ou, dizendo melhor, do sítio dela, pois, nos últimos vinte anos, já contei uma dúzia lá plantadas e pouco ou algum tempo depois, partidas. A árvore desgraçada fica na Rua de S.ta Joana Princesa, quase em frente à entrada do Centro Paroquial de Cristo Rei. Zona, como todos sabemos, muito bem, chique e recomendada. Mas não pelo amor àquela árvore, que deve ter mau olhado, feitiço e bruxedo a amaldiçoá-la. Deve excitar os ânimos, concitar a ira, provocar o ódio de sucessivos vândalos e patifes que, através dos anos, porfiam na sua destruição. Repetida e brutal.

Convenhamos: em cidade que se ufana da liberdade, esta nódoa configura que, no final das contas, ser inimigo das árvores não é questão de geografia social. É, sim, de chá em pequeno ou daquilo que se chama civilização.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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