Mudaram os tempos

Cristopher Lasch, aludindo às «doenças» modernas, falava em «morrer de indiferença» pela mediocridade transformada em «escatologia banal tornada omnipresente», a par dos «refinamentos da algaraviada universitária». Traduzindo para linguagem da Vitória, acho que vivemos numa sociedade de armar ao fino. E, quanto mais hermética e distante, mais se auto-compraz na afirmação do ego.

Quarenta anos de democracia não chegaram (nem admira, com trezentos anos de Inquisição e quase cinquenta de Estado Novo em cima) para que um sentido do D – de democratizar a cultura – se concretizasse plenamente. E, no entanto alguns procuraram libertar o país do lastro dos défices científicos, educativos e sociais. Em matéria de bibliotecas, arquivos, defesa do património e do ambiente, reabilitação urbana, centros interpretativos, museus, etc., a actualidade nada tem a ver com o passado. Mas não chegaram para contrariar certo pedantismo de Alta Cultura para as minorias e, logicamente, de baixa cultura para as maiorias que pastam, não votam (e já nem sequer procriam).

Isto vem a propósito da atribuição do Nobel a Bob Dylan. Para mim, bastava, além de outras coisas, ter escrito (quando outros andavam a dormir) que «os tempos estão a mudar». Explicando porquê. E mais: não tenho dúvidas de que certos letristas de cantigas contribuem mais para a compreensão da vida e a felicidade de a viver do que inúmeros autores incensados, a quem, no ajuste das contas, o mundo fica a dever pouco. Basta ler Ivan Lins («Lembra de mim»), Jean Drejac («Como tarda a morrer / a minha juventude»), Hal David («Com os olhos na estrada / estou a ver-te»). Ou José Mário Branco («Meu Porto / Muito mais vivo que morto»).

E quem não entender, paciência. Os tempos não estão a mudar, já mudaram. E a cultura também.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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