No coração tripeiro

Em Fevereiro de 86, o Bessa, barbeiro, poeta e activista do Grupo de Apoio ao Bairro da Sé, versejava: «Ó Senhora D. Sé / Não sinta tanta vaidade / Quando lhe dizem que é / Zona Histórica da Cidade.» Ou seja, a classificação não passava de palavras que ocultavam a realidade.

E, no Natal daquele ano, andei com ele a dar as Boas Festas. Ritual antigo, consistia em percorrer o Bairro, bater às portas, entrar, cumprimentar como está e Feliz Natal. Em troca, os anfitriões respondiam obrigado, beba vinho fino e coma passas com pinhões. E, naquele Dezembro, nos Pelames, no Souto e em Sant’Ana tudo era entusiasmo preparando a Consoada. Cheirava a rabanadas e à bacalhoada. Até às 9 só deu cumprimentos: ao Tony, ao Toninho sapateiro e à Joinha. E, ao rés da rua, porta sim, porta sim havia negócios. O Tasco do Fernando (onde, às segundas, cantavam fado), a Casa Osvaldo, o Sardinha Assada. E o José Campos mantinha o seu 5.º Avenida, pronto-a-vestir da moda, na Bainharia. Mundo morto!

De despovoamento e planos falhados, nas estatísticas da população da Sé: 1940 – 16876; 1981 – 10483; 1991 – 7343; 2001 – 4742; 2011 – 3705. Isto na freguesia, no Bairro a situação é muito pior. Isaura Pereira, orgulhosa bairrista exilada em Gondomar, escreveria: «Ó Sé dos meus Avós, dos meus Pais e dos meus Filhos, ó Sé da minha infância, onde aprendi a ser o que sou (…). O presente está a tratar-te como se a tua ancestralidade mais não mereça do que uma moldura de parede, ou figurares nos álbuns de família.»

Na hora da abertura da cidade ao mundo e à sua redenção urbana, estaremos, finalmente, à altura de responder ao desafio que sempre se colocou ao Centro Histórico: ser o coração batendo tripeiro, denso, cómodo e habitado? Ou vamos continuar a celebrar o Património sem gente dentro?

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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