Novos tempos

A Francisca fez dezassete anos. Nasceu no findar do séc. XX e cresceu no séc. XXI, com as mudanças que foram ocorrendo no mundo, no país e na cidade. Adaptou-se a elas. Começou a andar e a falar e nasceram-lhe os dentes com as revoluções da informática, do digital e do telemóvel, que mudaram as nossas vidas e, sobretudo, a da sua geração.

Pertence à categoria dos jovens para quem o computador é um electrodoméstico. E enquanto, para a nossa Humanidade, o habitual era a lousa, o caderno de significados, a sebenta, o quadro preto, os bilhetes-postais, as cartas entregues, por interposta pessoa, às namoradas, para eles – a Francisca e os seus colegas – a música é outra. E a realidade transformou-se num universo fantástico que nem Júlio Verne ou o Padre Himalaia conseguiriam antever. Na nova galáxia centrada em SMS produzidos a velocidade estonteante, de olhos fechados, com dedos que parecem extensões dos artefactos. Na intimidade de uma panóplia impressionante: iphone/smartphone, ipad/tablet, Instagram, Facebook, Facetime, Snapchat, Twitter, Emojis…

Mas não se pense que a carga tecnológica produz forçosamente hordas de idiotas, broncos e incultos. Porque, a par, estudam e conhecem na ponta da língua Bergson, Descartes, Montaigne, Kant, Rousseau, Freud, Hegel, Victor Hugo, Baudelaire, Racine, Lamartine, Radiguet. E também Camões, Garrett, Vieira, Pessoa (e heterónimos), Eça. Aprendem música, vão ao futebol e criticam a política velha.

Não. O mundo moderno não alimenta só cretinos e fundamentalistas psicopatas. Dele emerge também uma geração apetrechada com armas de conhecimento até hoje nunca existentes. Com elas, a inteligência, a imaginação e a criatividade andam por aí à solta. E nenhum passado é melhor do que aquele que será possível construir a partir de agora.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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