O molhe de carreiros

Raul Brandão falava na «penedia afiada de Carreiros, onde o mar escachoa». E Ramalho: «Defronte da casa que habito, em Carreiros, fica o paredão do quebra-mar.» E D. António da Costa: «que formosa que é a Foz (…), com o seu passeio de Carreiros.» Ou Camilo: «estava em Carreiros, olhando contra o mar.» E Alberto Pimentel escrevia: «ia passear-se para ali durante algum tempo, mas não se passava além do paredão de Carreiros.» E muitos mais haveria a citar.

Se para os oitocentistas era Carreiros, o século XX rebaptizá-lo-ia como «o Molhe». Assim o refere Pedro Baptista: «Agarrou-se aos varões do molhe.» E Kita Rios de Souza: «foi a vez da Foz, mais propriamente a praia do Molhe.» Ou Rebordão Navarro: «e me convidou a almoçar no restaurante do molhe, em manhã de névoas finas.» E Miguel Miranda: «O pequeno bar enquistado na espinhela da praia do Molhe.»

O Molhe de Carreiros é um quebra-mar construído a partir de 1825 para abrigo das embarcações impedidas de entrar no Douro. Só entre 1881 e 1885 ficaria concluído. O tempo converteu-o em esplanada, miradouro, praia da elite e do povo. Local de peregrinação. Sítio de ver poentes. E de namorar. Ícone urbano, para os portuenses da minha geração o Molhe quer dizer infância.

Para matar saudades, passei por lá. O mar desconjuntou algumas pedras da muralha. Caíram. O gradeamento onde pousaram milhares de gestos amorosos na contemplação do Atlântico (ou dos teus olhos apaixonados) em certos sítios desapareceu. Puseram fitas de plástico a avisar do perigo. Senti revolta. Pela incúria, o desleixo, o desinteresse perante uma das maiores atracções paisagísticas da Urbe. Dizem-me que já começaram as obras de reabilitação. Finalmente alguém teve vergonha e esperemos que o Molhe do nosso deslumbramento ressuscite da agonia.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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