Os gosmas

Salomão terá dito: «A pobreza é o maior de todos os males». Coisa que os cómicos que nos regulam a vida a partir de Bruxelas parecem ignorar, ao fazerem empobrecer o país. Mas uma coisa é a verdadeira pobreza, estrutural, corrosiva, indigna e sórdida, outra é a mentalidade e os hábitos que induz no espírito de muitos que nada têm a ver com ela. Porque uma coisa é ser poupado e viver com pouco, outra é parasitar a coberto das dificuldades sentidas (pelos outros).

Chamava-se no Porto «andar à gosma», à poupança e proveito por vias oportunistas e pouco escrupulosas. Por exemplo: pobreza era apanhar beatas e «reciclá-las» para aproveitar o tabaco, andar à gosma era cravar sistematicamente o parceiro para não comprar cigarros. Pobreza era tirar jornais do lixo para os ler e não – como alguns – «alugar» o jornal e evitar comprá-lo, etc. Um dos indicadores do subdesenvolvimento cultural (e não económico, pois muitos que o praticam têm dinheiro para folestrias) era esta prática, para «poupar, que a vida está má». Alegavam.

Parece que o expediente se mantém, não sei se por aluguer, se por empréstimo. E João Manuel, decano dos humoristas (e leitor do JN há 80 anos!) escreveu-me censurando «O Gosma» e perguntando: «Sabem quem é? / Igual a muitos mais / Que bebem o café / E leem de borla os jornais./ Chamo-lhe Gosma. / No meu ponto de vista / Pois Gosma tem que ser / Julga que o jornalista / Não tem direito a comer./ O Gosma é sempre assim / E como ele, infelizmente / Há um número sem fim / De gente como esta gente.».

E acrescenta o remédio para a doença (alguns chamam-lhe pobreza, na realidade é mesquinhez): «Mas alguém é o culpado / Ao emprestar os jornais / Dizia NÃO! / E o tipo envergonhado / De certo não pedia mais.» Apesar dos gosmas, o JN continua a aniversariar. Parabéns.

©helderpacheco2017

 

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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