Para o Zé

Como franciscano que, à tua maneira, sempre foste, dizias-te irmão de toda a gente. Prefiro chamar-te companheiro dos anos do leite e mel. O leite e o mel da nossa juventude. Dos 14 ou 15, quando nos conhecemos e andámos por aí, na cidade, descobrindo-nos, inebriando-nos. (E como tarda a morrer a nossa juventude, tão presente e tâo ausente…)

O leite e o mel, das tardes de cinema com a seita dos nomes de guerra: o Pigmeu, o Reisinho, o Xá da Pérsia, o Tenente – e tu, vindo de África, não sei se te lembras, eras o Zulú. Além de dois ou três mais que o tempo esbateu. As tardes das estreias, sobretudo de musicais (ainda te ouço, entoando o “Singing in the Rain”, Avenida abaixo, depois da “Serenata à Chuva”, no Trindade).

O leite e o mel das incontáveis e viciantes bilharadas, em sessões de «snooker» no Sport (o café de teu pai), no Ceuta ou no Aviz. Onde havia bilhares, a seita em peso lá estava. E aquela aventura nocturna em Compostela, à procura do deslumbramento. E muitos mais episódios de que um dia falarei, antes da nossa juventude morrer definitivamente.

Depois a sorte levou-nos por caminhos opostos mas, quando era preciso, sabíamos onde estava o outro. E mantivemos a amizade nos pequenos gestos. Nas poucas falas. Exultando com os sucessos recíprocos – o que me disseste sobre o 1.º livro e o que te disse quando demonstraste, com o Cubo da Ribeira (ainda hoje uma referência luminosa na arte pública do Burgo), que modernidade e tradição fazem parte do ADN tripeiro. E não cabe mais, de gratidão, saudade e celebração nos 1800 caracteres desta crónica.

Se eu tivesse o talento de Mário Dionísio, escreveria, como ele fez na morte do Carlos de Oliveira: Zé Rodrigues «É hoje o primeiro dia / em que há um mundo sem ti. // Esforço-me por entender o sem sentido disto (…)»

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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