Reconciliar o quotidiano

Nos idos de 2013 lia os cartapaços da Irmandade dos Clérigos quando o fantasma que, segundo o mito, vagueia na Torre me pregou uma partida. A culpa foi minha. Em vez de permanecer no Cartório, meti-me a explorar uma escadaria de madeira, escura e mal amanhada e malhei de cabeça.

Com a ajuda dos anjos da Vitória, de N.ª S.ª da Assunção e do Prof. Rui Vaz, salvei-me de um Hematoma Subdural Agudo e regressei à vida. Foi o primeiro milagre. Encontrei o segundo, voltando ao Complexo da Irmandade: Hospital dos Clérigos, Salão Nobre, Casa do Despacho e Cartório. Milagre de iniciativa, decisão, modernidade, à altura do nosso Tempo. Dando sentido à ponte entre tradição e inovação. Herança e mudança. Honrar o passado celebrando o presente.

E onde, na descida aos infernos, vira abandono, degradação e teias de aranha, descobri a Igreja, o edifício da Irmandade e a Torre reabilitados ao centímetro. Ao pormenor. Novíssimos em folha. Para todos. Com acessibilidades disponíveis aos deficientes, incluindo uma Sala onde quem não pode subir à Torre pode ver o Porto «lá de cima», nos sete monitores que o transcrevem.

E a Igreja é esplendor. A Santa Parentela (a família de Jesus Menino) reencontrou a graça e o Salão Nobre é repositório de arte. Mas o meu espanto vai para a transformação da antiga Enfermaria na notabilíssima exposição de imagens de Cristo doadas à Irmandade. E, nesta Colecção Christus, um conjunto exemplar é dedicado aos Passos da Paixão. O drama, a ternura, a emoção. Não admira que alguns visitantes se comovam até às lágrimas.

E nem admira que o projecto de restauro dos Clérigos tenha vencido o Prémio Europa Nostra 2017 para o Património Cultural. Sai-se de lá reconciliado com o quotidiano e a pensar: «Caramba! Afinal o mundo ainda é melhor do que parece!»

©helderpacheco2017

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
%d bloggers like this: