Riso do Ano Novo

Uma dos conceitos mais ignorantes da realidade era dizer «A escola da rua», querendo referir o vício, violência, manguelice e falta de civismo. A malcriadice.

Em verdade, a rua é a base estruturante da cidade. O lugar do encontro e da convivência. Da animação e da conversa. Do bom dia e boa tarde. Das lojas, compras e trocas. Das perdas e dos ganhos. Dos sorrisos. Das alegrias e das inconveniências. Das novidades. Do ruído e da algazarra. Da multidão. O lugar excelente do espaço dos vivos.

E lugar de vozes: insultos, gracejos, insinuações. Seduções e rejeições. Do anedotário expressivo das ruas do Porto aqui registo, para memória futura, algumas pérolas. Em primeira mão e contadas pelos intervenientes: 1 – Na Avenida, um jarreta passou por uma rapariga vistosa e chistou-lhe: «Que monumento!» E, distraído, chocou violentamente com outro que foi aos arames ante o gáudio da visada. 2 – No alto de 31 de Janeiro, o senhor subia e a senhora descia. Quase atropelando-se mutuamente, iniciaram uma série de desvios, estorvando a passagem mais do que a facilitando. Perante a indecisão e a dança, praguejou o homem: «Poça p’ró tango!» E desviaram-se. 3 – Do mesmo género «passas-ou-não?», um médico conhecido, em frente do Stº. António, disse para uma peixeira de óculos, com quem procurava cruzar-se: «Ó Micas, botaste vidros? (insinuando que ela via mal). Ao que a dita replicou: «Botei, botei. No olho do cu, para tu espreitares!»

Mas a melhor da série desta cultura de espontânea verbalização sucedeu em Gondarém a uma jovem em pleno uso das suas faculdades de fascinação. Passou por ela um rapaz e mimoseou-a: «A menina é mesmo um rebuçado peitoral. E eu ando cá com uma tosse!» (Não sei se sabem que a palavra piropo, figuradamente, quer dizer madrigal. É o caso. Na perfeição.)

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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