Saber viver

Não acho que ser pobre seja uma escola para a vida. Uma aprendizagem de carácter. E que, para enrijar o corpo (e a alma), seja, no primeiro caso, necessário levar porrada de criar bicho e, no segundo, passar dificuldades e comer o pão que o diabo amassou. Viver mal não é caminho para coisa nenhuma e, por isso, considero indigna a aceitação da normalidade de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza! Posto isto, obliquo noutra direcção.

Para dizer que, não obstante, em país onde (pelos vistos) a miséria bate às portas, se estragam recursos, se desperdiça comida e gasta, em inúmeras situações, o que não se tem. Como repontava o meu saudoso amigo Melo: «Quem só tem dinheiro para carapau não devia comer lagosta.» Há sítios onde, no final das refeições, causa repulsa ver o que sobrou. O que se deita fora. E há famílias (não tenho nada com a vida delas) onde os meninos são treinados não para viverem como cidadãos, mas para serem consumidores, esbanjadores ou predadores. A velha máxima dos tempos atrasados de que tudo o que se punha no prato era para comer foi para o caixote do lixo, com o desperdício. (Agora atenuado porque já há quem leve os restos.)

Vem esta arenga a propósito de uma carta que me facultaram. Escrita em 1946 (no pós-Guerra, anos desgraçados para muita gente) por uma avó ao neto, do Bairro das Eirinhas, lugar de pobres e remediados. Revela algo que está a faltar: comedimento e atitude. Se quiserem, princípios. Ou saber viver.

Advertia então a avó: «O Fernandinho fica prevenido de quando não puder ou quizer cá vir comer, avisar de véspera para evitar despesas inuteis. O mesmo fará, quando precisar de vir, para [eu] saber com que se deve contar. Lucia» A isto chamo eu educação. Mas estou a ficar reaccionário –  afinal vivemos numa época moderna!

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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