Ser Portuense

Como isto do “Melhor Destino Europeu” mexeu com os tripeiros, pus-me, com uns amigos, a meditar sobre o que tem o Porto de especial para atrair as pessoas.

Às de fora não sei. Às de dentro é algo que nasce e vive connosco. Que nos transcende. Íntimo e transmissível. De avós a filhos e a netos. Inexprimível e, porventura, inexplicável. Imponderável. Mas havia quem pusesse a tónica no ambiente, na paisagem. Numa nostálgica tristeza de certo romantismo  persistente (fora de moda e doutro tempo) no carácter dos lugares. No entanto, as opiniões convergiam num ponto: o espírito das pessoas e uma personalidade assente em valores inconfundíveis. Na conjugação de orgulho e simplicidade. No individualismo caldeado por laços solidários. No sentimento do  território herdado e assumido como património essencial. E a generosidade. A irreverência. O coração ao pé da boca. A linguagem sem peias. Além de mais atributos que dariam um dicionário.

Passámos então a esmiuçar o que faz a cidade e surgiram três pérolas: 1.ª Na beira-rio, um pescador da cana aviava tainhas graúdas, amontoadas no cais. Interrogado sobre o modo de frigorificar aquela arroba de peixe e espantado com a pergunta, retorquiu: «Isto é para os gatos do meu bairro. Vão fazer uma festa atestada!»; 2.ª Quando os condutores dos eléctricos anunciavam as zonas, havia um que, na Praça da República, berrava: «Campo: quem quiser pastar que saia!» E várias vezes esteve para levar umas galhetas de passageiros ofendidos; 3.ª Diálogo ouvido num eléctrico do Bonfim entre mulheres que altercavam: «Olha que eu chamo-te uma coisa que nunca foste!» (repetido). «Então chama!» (idem) E a outra chamou: «Honesta!» Foi o bom e o bonito!

Este é o tripeiro que anda por aí. Contra a globalização e a uniformidade. Que o Senhor o fade bem.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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