Stupet, Gentes!

Pasmai, ó gentes – diziam os romanos. Por isso, esta crónica move-se num enredo clássico. Mas Grego. Também nossa raiz, nosso alfa cultural, nossa longínqua fonte de civilização. Helénico, Olímpico, apropriado ao que trago à colação.

E o que trago é o deslumbramento causado pelas transmissões dos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro. Eu, que nem sou atreito a ver programas desportivos (excepto os jogos do FCP) e muito menos os dos Jogos Olímpicos! Pela simples razão de já não saber onde acaba o ideal e principia a afirmação nacionalista de domínio. Como nas guerras. Onde termina o desporto pelo desporto e começa a falsificação dos resultados, a mistificação, os campeões pré-fabricados. E, sobretudo, por saber que do desporto amador, dadivoso e altruísta, nada resta.

Fico, portanto, deslumbrado com o esforço, a superação das dificuldades, a capacidade de enfrentar o (que nos parecia) impossível, a resistência ao desânimo. A têmpera, a tenacidade quase sublime (como a dos indianos que competiam no salto em altura), a afirmação da coragem.

Nesse capítulo, conheço um atleta olímpico de que ninguém fala, praticante de desporto muito especial. Vem dos lados do Aleixo e vejo-o, quase diariamente, subindo penosamente, de bicicleta, a rampa do Campo Alegre. Pedala com uma única perna até aos semáforos dos acessos à Ponte da Arrábida e ali fica durante o dia, pedindo a moeda aos que passam. É um campeão. Tenaz e perseverante, venceu a deficiência numa modalidade inesperada: ciclismo para amputados.

Não merece esmola. Merece pódio, medalha de ouro e um gesto de reconhecimento pelo exemplo de enfrentar assim a adversidade. A ele bem se aplicam as palavras de Hesíodo: «À frente do mérito, porém, / puseram os deuses o suor: o caminho / para lá é longo e corre a pique (…)»

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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