Um aristocrata na república

Tínhamos em comum a paixão pelo Porto. Arrebatada e assumida. E o republicanismo. Na crença de que o governo do país deve ser exercido por indivíduos responsáveis pela sua acção perante quem os elegeu. Na defesa do Bem-Comum e de mãos limpas (quantas vezes falámos disto nas caminhadas de fim de tarde, entre a Câmara e a Picaria, quando percebemos que nesta República sem republicanos muitas mãos estavam a ficar cada vez menos limpas). Um republicanismo de sabor jacobino (ou não fôssemos tripeiros) matizado pela aceitação das diferenças. Da pele à religião, segundo o princípio “Vive e Deixa Viver”.

Orgulhosos portuenses, portanto. Oriundos de dois dos extractos sociais que construíram a cidade. O Miguel, da grande burguesia fozeira, a quem o toque francês materno concedia a aura cosmopolita que o distinguia. Eu, da média (a cair para a pequena) burguesia vitoriana, com antecedentes em lavradores durienses, sem pedigree que não fosse o trabalho.

Talvez por isso nos entendemos tão bem. E fomos cimentando uma amizade iniciada com a luta estupenda contra o primeiro projecto dos Molhes da Foz e aprofundada ao longo de quase catorze anos ao serviço da qualificação da nossa cidade bem-amada. Sem reticências, aí nos encontrámos. Aí o encontrei na verdadeira face da sua integridade.

Quero dizer, da rectidão e inteireza da política na mais pura acepção da palavra. Não fabricado segundo a cartilha das Jotas, mas formado na plena consciência do papel dos cidadãos no destino dos países. Um político servindo a causa pública sem aspirar ao poder. E um fruidor da arte de viver, com prazer e sensações. Um cavalheiro e um cultivador admirável da língua portuguesa. Miguel Veiga: meu amigo inesquecível e aristocrata na República. Na inteligência, no saber e na cultura.

©helderpacheco2016

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~ por Helder Pacheco em 11/06/2017.

 
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