AS MINHAS CONVERSAS COM MIGUEL VEIGA (ALUDINDO AO PRÍNCIPE, DE TOMASO DE LAMPEDUSA)

Nós, os da nossa geração, devemos retirar-nos para um cantinho e ficar a observar as cambalhotas e as cabriolas dos jovens em torno desse cadafalso pomposo. Vós, agora , tendes é precisamente necessidade de jovens, de jovens desembaraçados, de espírito aberto mais ao «como» do  que ao «porquê» das coisas e que sejam hábeis em mascarar, em temperar, quero dizer, o seu preciso interesse particular com os vagos idealismos públicos.

                        Tomaso de Lampedusa (O Leopardo)

Ao longo dos catorze anos de conversas de fim de tarde, entre a Câmara ,  a Rua da Picaria e, a seguir , no caminho da Foz falávamos , por vazes , de Lampedusa e do Leopardo. Quero dizer: do Príncipe D. Fabrício , cuja presença se  pressentia em Miguel Veiga, na sua intensa percepção da aventura exaltante e misteriosa a que costumamos chamar vida. Vendo bem , em corpo inteiro, o Príncipe era ele. Nas paixões e nos entusiasmos repentinos. Nas irreverências e nos inconformismos . No politicamente incorrecto, que, heterodoxo militante, praticava em pequenos pormenores (como a recusa de  usar o cinto de segurança, que o incomodava, ao conduzir, ou em deixar de fumar em recintos públicos ou privados – e,  designadamente,  nos oficiais -, na pura rebelião contra as peias da  liberdade individual, que tanto prezava).

Um Príncipe liberal e republicano. De um republicanismo sedimentado pelos princípios do direito , da responsabilidade social e  da acção política ao serviço do Bem Comum. Naquele sentido da « ideologia urbana baseada em Aristóteles e S. Tomás de Aquino e difundida pelos Dominicanos, que pregava as virtudes da communitas» (Ferrão Afonso, 2011) tão cara aos burgueses do Porto que, alguns séculos passados (conforme a conclusão de uma das nossas conversas) ,  formariam «da política propriamente dita uma ideia longínqua e nebulosa, a que a palavra ladroagem servia de vaga síntese» (Ramalho dixit). Porque , para ele , a política era algo mais nobre e  consistente do que o parvenu  que por aí volteia .

Príncipe liberal, no Porto, é bom de ver, só poderia ser assim . E cabe dizer que as nossas conversas de fim de tarde eram mantidas flanando ao longo do passeio da Rua de Ricardo Jorge, subindo a ladeira até Mompilher e descendo  do alto da Picaria até à garagem do seu escritório. Ali guardava o Volvo possante arranhado e cheio de mossas (as portas eram demasiado estreitas para o seu desacordo com a largura das mesmas). Pelo caminho até à Picaria havia paragem obrigatória para tomar um café, de pé, no balcão da confeitaria da esquina do Almada que, a partir de certa altura, passou a fazer parte do cenário desta espécie de entrevista mútua .Ou mais talvez diálogo  mensal  que nos habituámos a cultivar , terminadas as reuniôes da Comissão Municipal de Toponímia que ambos integrávamos .Tal parolagem servia para trocarmos impressões sobre os últimos escândalos, as últimas chuchadeiras, os últimos ridículos, as últimas sensaborias. Com ela arrasámos vários governos e alguns  ministros antes, digamos ,  da ordem do dia e da pausa do café.

A seguir, a viagem prosseguia de automóvel adoçando as abordagens da realidade. Mudava então, por completo , o alfa e o ómega das nossas fantasias verbalizadas, passando da crítica ácida, mordaz, maliciosa (ou do comentário erótico) do Príncipe, para as novidades não apenas literárias como de quanto viesse a propósito ou despropósito .. E, principalmente, abordando ideias e anunciando expectativas , como que reinventando o «bira» das estampas das «Victórias» que ambos coleccionáramos ciosa e didactamente. Nem admira, já que pertencíamos à mesma fornada de usufrutuários de uma cidade  feita de pormenores, rituais, relações, convívios e infâncias em territórios de convergência (o dele na Foz, o meu na Vitória). Ressuscitámos, portanto, o jogo do «vira» trocando , não papéis de seda com retratos de bichos às três pancadas, mas  escolhas de autores , permutando os livros e poemas da nossa vida. Umas vezes, em uníssono, acertando na selecção, outras procurando o convencimento recíproco da bondade e da inevitabilidade da opção.

Nos em que acertámos sem mais nem delongas, surgiu desde logo Borges. Indiscutível. Nenhuma reticência. O Borges de uma das íntimas e primeiras conversas: «Noto que estou envelhecendo; um sintoma inequívoco é o facto de que não me interessam ou surpreendem as novidades, talvez porque noto que nada essencialmente novo há nelas e que não passam de tímidas variações. Quando era jovem , atraíam-me os crepúsculos, os arrabaldes e a desdita; agora, as manhãs do centro e a serenidade». Borges seria, portanto, para ambos , uma questão de princípio. E depois Lorca, sem discussão: «En la mañana verde, / queria ser corazón. / corazón».

Falta dizer que na viagem de automóvel – vagarosa e impertubável, para não prejudicar o intercâmbio de predilecções – fazíamos o itinerário da marginal. Olhando o trânsito e contemplando a paisagem sempre a deslumbrar-nos os ímpetos e fixações bairristas, como se a Ponte da Arrábida, no crepúsculo, constituísse a visão última do Paraíso. De qualquer modo, fosse Inverno, Primavera ou Outono (no Verão , a nossa Comissão fechava para férias e não havia reuniões na Câmara), o percurso até à Pasteleira ( onde, junto do Pingo Doce, nos despedíamos então boa noite , até à próxima  e aperto de mão), permitiu, especialmente nas tardes de muito trânsito e bichas contínuas de automóveis, aprofundar as nossas reservas de substância lírica e fazer revisões da matéria abordada. Como os imperdíveis e quase indispensáveis franceses: e, neles, d’abord, Prévert , de que há muito, talvez por estar fora das modas pós-modernas, ninguém falava. Sim , Prévert: «Quel jour sommes-nous? / Nous sommes tour les jours / Mon amie / Nous sommes toute la vie / Mon amour». E logo a seguir Aragon: «Je ne sais quel parfum pathétique et profond / Soufle une illusion de roses au plafond». De resto ,  os franceses , considerados poetas de cabeceira , como se os tivéssemos de antemão combinado, foram emergindo nestas conversas . Casuais e aleatórios, existiam nas  colectâneas  comuns da substância atrás falada  ( e das Victórias, ambos concluímos ter possuído  o bacalhau, o cabrito e a cobaia, que o Rebordão Navarro muito ansiava obter e tanto se esforçou para que o Miguel lhos cedesse que, um dia, até lhe ofereceu a ansiada contemplação de uma mulher nua – não era, mas sim uma rapariguinha desprevenida espreitada por um buraco de fechadura, que nunca se despiu inteiramente).

E assim, numa tarde, no lusco-fusco da Arrábida, bem apropriadamente ao correr do galope dos dias, surgiu Eluard: «Nous de l’avenir / pour un petit moment pensons au passé.» (por vezes sucedia isso de regressarmos ao passado mas, pouco dados ao saudosismo, logo desengatávamos da marcha-atrás). Em todo o caso, tais pensamentos não seriam de todo inúteis, como quando consideramos que  Apollinaire fazia parte das paixões – as literárias e as propriamente ditas ,  tri-dimensionais, dos vintes anos, quando por acção de ambas, tínhamos descoberto os “Alcools”: «Tu descendais dans l’eau si claire / je me noyais dans ton regard».E , em certa conversa (nem sempre versando poesias e poetas) ,  surgiu Valery: «Ó ma mère intelligence / de qui la douceur coulait».

Mas uns tantos mais ainda estavam para reverenciar. Semanas, meses (ou anos?) depois. Que estes momentos de trocas (toma lá, dá cá, também acho, também é meu, tenho-o em casa, no livro tal, na edição assim, assado, cozido e frito , etc.) demoraram e  precisaram de muitas horas  para se consolidar. O  tempo, naqueles dias, era coisa, muita, que tínhamos pela frente e à disposição. Tempo e paisagem, enquanto ia decorrendo o nosso afã de renovar a fisionomia da cidade com  novas placas toponímicas verdes, contendo tudo quanto os munícipes há muito solicitavam: datas e explicações sobre os nomes. E , desta forma, conversando , fomos passando (ou passaram por nós) os anos.

Dos anglo-saxónicos – nem admira, para um refinado parisiense instalado no Porto -, o ajuste das preferências coincidiu em apenas dois nomes. Sem surpresa ,  Whitman e as “Leaves of Grass”, evocando o Clube dos Poetas Mortos com o «O Capitain! My Capitain! Our fearful trip is done» (dito na versão francesa, da Seghers, que possuíamos: «O Capitain! My Capitain! Notre voyage effroyable est terminé»). E, entre os ingleses, apenas Keats, ainda em versão francesa, que não é para aqui chamada , uma vez que as transcrições de poemas ou se fazem do original ou em boas traduções – quando as há-  , o que não era o caso de «A Thing of Beauty is a Joy for Ever». Quanto a Rilke, o entendimento foi rápido num certo ponto de contacto e identificação: ambos , aos vinte e picos ,  tínhamos lido as “Cartas a um Jovem Poeta”. Bem mantidas nas lembranças. E os poemas vieram logo a seguir, inevitavelmente: «E tu esperas, aguardas a única coisa / que aumentaria infinitamente a tua vida; / o poderoso, o extraordinário».

 Surgiu então com a escolha dos poetas portugueses o problema maior e insuspeitado, pelas divergências emergentes do nosso jogo do «bira» dos autores desaparecidos (quase todos, excepto Albano Martins, que numa, talvez última paragem para o café das 7, veio à colação justamente com “Uma Rosa para Miguel Veiga”: «Hoje, Miguel / colho uma rosa no jardim / das águas e ofereço-ta»). Só acertámos em Nemésio, acordando que a verbosidade televisiva escondia um grande criador de versos , dizendo que «Um poema tem mais pressa que o romance, / Asa de fogo para te levar». E ainda Herberto Helder, resolutamente no seu “Prefácio” de que, sentado ao lado do chaffeur do Volvo das nossas viagens seguindo a marginal, certa vez puxei de um papel e li: «Falemos das casas, do sagaz exercício de um poder / tão firme e silencioso como só houve / no tempo mais antigo» ( tão bem adaptado ao sentimento do Porto…).

E mais nada . Pois nunca chegámos a acordo quanto a Sophia. Certamente por culpa minha  , pois embora ela tivesse escrito ser o Porto a «a pátria dentro da pátria» e pelo Príncipe considerada de «clareza lapidar e fulgurante», a verdade é que lendo, relendo e tornando a ler a sua poesia (toda), não encontrei mais do que um ou dois poemas dedicados ao Burgo. Muito pouco para a colocar no mesmo pedestal do meu companheiro . Bom ,  nisto  reconheço serem excessos das manias derivadas do meu integralismo tripeiro , mas  a verdade é que Eugénio deveras escreveu sobre o Porto e, apesar disso, também não consegui conceder-lhe o panteão de tutti quanti atrás citados. Nem sequer Pessoa , cujo Alberto Caeiro da nossa juventude não resistiu ( contrariamente à opinião do Príncipe) à passagem do meu tempo.E , em matéria de  confluências nada mais acertámos. Ele não era um anglófilo e nos brasileiros não pairámos o suficiente para decidir qualquer mútua afeição. Ficámos por Vinícius e, mesmo esse, de raspão.

Era, sem dúvida  um facto : a persistência francesa  pairava como pano de fundo destas conversas . De qualquer modo , citando Boris Vian, que bem poderia ter entrado no nosso panteão se o meu companheiro gostasse de jazz , ou então o incomparável Django Reinhardt , de quem a “Nuage“ bem poderia ter-nos deliciado  , citando, pois , Vian  , a  écume des jours  permitiu-nos fazer outra descoberta ( ou mais um encontro). Certo dia , talvez a descer a Restauração ou na passagem da Alameda ou, mais prosaicamente, no Bicalho ou no Ouro – as viagens faziam-se sempre no sentido do poente -,  encontrámos em cheio uma referência repartida: sem nunca nos termos lá cruzado, ambos, na época, frequentávamos, em Saint Germain-des-Prés, os cafés  “de Flore” e “Deux Magots”. Espantosa coincidência !  Vai daí, em  viagens diferidas ( depois  disso ,apercebi-me de que os presentes não se oferecem de uma vez, para serem melhor sorvidos), o Príncipe começou por me passar  para a mão, quase timidamente (coisa  nele pouco habitual), um pequeno embrulho. Vi o conteúdo: era uma pintura naif representando a Place de St Germain com a igreja e, na esquina, o nosso património tornado comum: o “Café les Deux Magots”. Bonita surpresa ! Meses depois, animado por certa conversa onde o Museu Delacroix viera à colação, entregou-me novo embrulho,  de idêntica dimensão e formato, contendo uma pintura do mesmo autor  da anterior, que assinava Jam ( mandada emoldurar, tal qual a anterior, na antiquíssima Moldursant da Picaria –,  percebe-se porquê : era quase fronteira ao seu escritório) . Desta vez, aludindo à minha admiração por Delacroix (cujo museu e casa onde vivera ali fica, do lado esquerdo quem sai ), representava a Place de Furstenberg  onde os nossos olhos se extasiavam ( e que elegemos ser a mais recatada , encantada e de charme quase sublime de Paris, Sacré enchantment!).

Aí por alturas de 2004 (conforme Borges , «o tempo não cunha moeda» mas a sua duração foi-se dissolvendo no corredoiro dos nossos dias ) imponderavelmente e à revelia de todas as conversas (tanto as fúteis como as circunspectas) , o Príncipe disparou-me, à queima-roupa, inquirindo o que achava sobre haver ou não fado no Porto. Porque  lhe tinham pedido  para escrever sobre o tema. Ponderei estremunhado com a questão, a resposta a dar. Que achava que sim, que o havia conforme , castiço e apropriado. Mas adiantei que não estava suficientemente alavancado  para o justificar. Era só de vista e de ouvido. Só opinião  com alguma  alquimia bairrista. Da frequência de uns tantos sítios de fado vadio que me parecia bem portuense. Mas que falasse com quem sabia e, especialmente, em matéria de sentimento, que falasse com o Bessa (barbeiro da Bainharia e criador de letras de canções para a fadistagem ).E, por acaso , até tinha o Bessa à mão, pois entrara há pouco para a Comissão . Julgo que discutiram o assunto e, mais tarde, as consequências  vieram  à colação no texto de apresentação do CD da série “O Fado do Público” , dedicado aos “Fados do Porto”. Nele se justificava a presença de um fado menor indissoluvelmente ligado ao Burgo. E quanto a conversas fadistas foi a única.

 Neste discorrer sem alternativas de percurso, nem sequer por acidente, já que , salvo alguns engarrafamentos ocasionais, nada veio perturbar o rumo habitual dos aconteceres , depois de uma reunião onde confessou, dirigindo-se ao sector feminino da mesma, gostar que lhe fizessem festas – como os gatos – teríamos ainda de concluir algo interessante a acrescentar aos interesses acumulados, ao menos para mim, incondicional  admirador de tais felídeos. Discutidas as capacidades, ronhas e artifícios dos ditos-cujos, em momento certamente de azedume perante as últimas notícias surgidas sobre as imposições da Troika e os achaques das políticas daí derivadas, acordámos que os gatos são mais inteligentes e leais do que muitos humanos que por aí proliferam.

 Mas estava para chegar o melhor da peregrinação  aos meandros da  inconsútil convivência aqui expressa, construída em reuniões camarárias, dezenas de conversas , viagens de automóvel até quase à Foz, intervalos para beber café (e, às vezes, o Príncipe  umas águas , por se sentir  ainda afrontado do almoço), paragens finais para resumir e até à próxima, antes das despedidas e uma outra visita ocasional ao escritório da Picaria. O melhor, dizia, desta estranha e excelente amizade construída entre ex-desconhecidos a partir do que íamos descobrindo ser-nos pertença partilhada, atingiu o clímax quando, por alturas de Abril de 2008 ( já lá vão quase nove anos e parece ter sido ontem – ou anteontem) , resolvi, à falsa-fé, assaltar o Príncipe. Foi assim: andava então a preparar um livro porventura despiciendo para o progresso do mundo e talvez egotista, ou, dizendo à moda da Vitória, talvez armante, espécie de antologia de textos especialmente significativos para o autor, comemorando os meus 25 anos de escrita sobre a cidade (devaneios de um pequeno-burguês da Rua do Correio com ilusões de escritor ). O livro chamar-se-ia “Ver o Porto” e, em tarde de arrebatamento tripeiro  (já não me lembro, mas, se calhar, olhando pela milionésima vez  o poente sobre a Barra, que até nos arranha por dentro), em momento de vibração patriótica, pedi ao Príncipe que me escrevesse o prefácio da obra. Com bons modos e a medo. Metendo pelo meio o apego às raízes e a espécie de cruzada sentimental pela Invicta em que andara envolvido nesse quarto de século. Contrariamente ao que temia , disse logo que sim. Que lhe mandasse os textos para conhecer o conteúdo do livro e para quando queria o escrito. Aí para Junho. Tudo bem, conte com ele. E contei. Em Junho , entregou-me o que ficará como um dos mais belos, sensíveis e, porventura, comoventes registos a propósito da relação de alguém com esta cidade. Esta «nossa geniosa cidade», conforme escreveu, bem-amada. Esta cidade que nos seduz, enleia e perturba. Que contínua e irresistivelmente atrai. Conjugando «as tradições da memória e as esperanças e mudanças do futuro», neste prefácio arrebatado e arrebatador o Príncipe plasmou a espécie «de tempo abolido (…) onde nos reconhecemos ». Porque «o passado também se inventa. O nosso e o dos outros. É uma das funções do presente , que não se vive à espera que o futuro caia  dos céus, conquistado e imaginado por outros.» E, servindo de  crisol das palavras que nos moldam a uma realidade magicamente explicitada, Miguel Veiga – qual verdadeiro e insuspeitado demiurgo – ainda nos adverte de que «não podemos falhar o futuro, onde, mais ou menos americanamente , já estamos. Mas falhá-lo-emos, como nosso, se não levarmos ao seu encontro e não escrevermos na sua órbita imaginária aquela espécie de vontade de existir, de ter um destino». Abençoado seja quem assim falar  sobre a nossa precária condição de responsáveis , não digo pela construção , mas, ao menos, pela antevisão do dia seguinte.

E abençoada a hora em que os fados, os deuses, o acaso ou as exigências e contingências da orgânica camarária nomearam para presidir à Comissão da Toponímia da cidade o último dos príncipes que Tomaso di Lampedusa poderia imaginar existir em cidade tão burguesa , prosaica e terra-a-terra como o Porto. Um Príncipe que, na nossa última conversa ( não em viagem de automóvel , mas quando o visitei em sua casa), nas entrelinhas dos silêncios e desencantos nos advertia que ia sentindo, como D. Fabrício   seu equivalente  imaginário  , «o fluído vital, a faculdade de existir, a vida em suma, talvez até a vontade de viver desprendendo-se de si, vagarosa mas continuamente, como os pequenos grãos de areia que escorregam um a um, sem pressa e sem detença, pelo estreito orifício da ampulheta.»

E abençoados os anos destas  viagens inesquecíveis com Miguel Veiga – o Príncipe de uns e de outros momentos. Anos , sim, agora o vejo e o entendo, decididamente, de ouro, em que pressentíamos o enraizar do acordo sobre o essencial, naquela forma de cumplicidade republicana nas decisões necessárias em prol do Porto ( ainda aqui Borges: «Esta cidade que eu criei meu passado / é meu futuro, meu presente»). Anos de sedimentar uma afeição fraterna, simples, sem atavios nem outra recompensa que  não fosse o natural entendimento das coisas.

Miguel Veiga, nosso Príncipe: agora que, tal como no romance ( ainda , uma vez mais ,  Lampedusa)  , «Vénus envolta no seu turbante de vapores outonais» se decidiu a «marcar-lhe um encontro menos efémero, longe das imundícies e do sangue, na própria região das certezas perenes.», também podemos compreender quanto nos custa a sua ausência  deste  Burgo  tripeiro (que, há dias, Sobrinho Simões, inspiradamente, designou como pertencer «a outro país»). E, sobretudo , quão  injusto  é ele – que tanta paixão tinha pela vida – não poder participar nem assistir ao renascimento urbano da cidade . Por que tanto ansiávamos e para o qual tanto procurámos contribuir. Um centímetro que fosse, cada qual a seu modo , com os olhos postos numa utopia chamada esperança. Ou , se quiserem , chamem-lhe  amanhã .Não mais do que isso .

Helder Pacheco

Publicado no Jornal “As Artes entre linhas”, Julho 2017

 

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~ por Helder Pacheco em 07/10/2017.

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