Porto: Adegas, Tabernas e Casas de Pasto (Os bons velhos lugares do convívio do povo)

Com a assiduidade de sempre, Helder Pacheco apresenta-nos um livro mais, com nada menos de 366 páginas e com as habituais dimensões que só permitem a sua leitura em casa e de preferência sobre uma secretária vazia para o caso de sobre ele se querer tirar algumas notas.

Começando pelo princípio, se me permitem o pleonasmo, convirá, antes de mais, estabelecer as diferenças entre adegas, tabernas e casas de pasto.

Adega é um compartimento de propriedade rural, onde se armazena o vinho, azeite, batatas, cebolas, etc., servindo também para caracterizar o depósito de produtores particulares, e igualmente de armazenistas/vendedores de vinhos por grosso, definição que acabou por contemplar os vendedores de vinho a retalho, embora, em rigor, caiba a estes a definição mais justa de  taberneiros, porque derivada de taberna ou tasco. Casas de pasto, por sua vez, eram locais onde se  serviam refeições, associadas as mais das vezes ao  fornecimento de dormidas em tempos mais recuados.

No caso das adegas, tascos ou tabernas, não acho que tais espaços tenham sido modelo de convívio a ter em conta, pese embora nalguns deles terem nascido grupos excursionistas, de bem-fazer, etc. Antes de mais, porque em tais lugares, bem visíveis nas fotos que os ilustram,  o espaço disponível dificilmente albergava em simultâneo mais do que uma dezena de clientes e confinados a uma vizinhança muito próxima, à rua ou ao quarteirão, e mesmo assim com forte concorrência. Convívio, pois, de carácter muito restrito, tanto mais que, por norma, não serviam refeições, dado que os frequentadores saíam de casa com o almoço em marmitas, que aqueciam nos empregos ou na rua, se acaso ao ar livre trabalhavam, sobre uma chapa com uma fogueira por baixo. Quanto a jantares, se os houvesse, comiam-nos em casa. Fora, nos tascos, quando muito, comiam uns bolinhos de bacalhau, boroa, azeitonas, porventura, uma sande de queijo, de presunto ou chouriço, que era o que havia em tais lugares.

Para mim, os centros de convívio por excelência eram os cafés, onde todos eram aceites. Neles, a troco de uma chávena do dito, acompanhado ou não de um bagaço, que também era servido isoladamente, passavam-se horas para quem as tinha disponíveis, falando-se de tudo, das dificuldades da vida e dos amores, do emprego, do futebol, do cinema e da revista, e até de política (em surdina e com miradas rápidas ao redor), para além de se darem explicações a alunos mais atrasados, cobrando a respectiva, e de passarem por escritórios empresariais por falta de instalações próprias. Deles também resultaram a organização de excursões, de clubes de futebol e de campeonatos de bilhar e de ténis de mesa.

É claro que tais convívios, num e noutro caso, eram exclusivamente masculinos. Para as mulheres haviam as missas, as novenas, e as mercearias, locais onde punham a escrita em dia com as vizinhas.

Ainda no que diz respeito aos tascos ou tabernas, tendo em conta a minha experiência, que adveio de na minha infância ter morado na rua do Bonjardim, com um tasco frente à casa que habitava e mais dois a poucos metros de distância, para cima e para baixo, aquilo era desagradabilíssimo. Fora os acontecimentos anedóticos, que motivavam boa disposição, as mais das vezes eram  vómitos e agressões feias, nomeadamente sobre as mulheres quando tentavam retirar o seu home e levá-lo para casa.

Não sei se o quadro do Malhoa, Os Bêbados, executado ao redor de 1913, que sempre muito admirei, influiu no modo como aprecio tais lugares, apesar de com eles celebrar curiosa empatia por via do abastecimento, que era então recorrente aos carros de bois, os quais enchiam o meu imaginário infantil até ao ponto de ter como brinquedo favorito justamente uma carroça de bois em madeira!

A coisa era bonita de se ver, particularmente no cuidado que as descargas requeriam, não fosse alguma pipa soltar-se. Não tenho ideia de ter ocorrido alguma tragédia, mas recordo o caso de uma pipa que desatou a rolar pelo breve declínio da rua, dos berros do pessoal que corria atrás dela enquanto não acabou espatifada numa esquina. E do cheiro a vinhaça que persistiu durante muito tempo no local.

Depois, presumo que tal meio de transporte passou a ser proibido de circular no centro da cidade, em razão do qual as pipas passaram a ser transportadas em camionetas, com grave prejuízo da qualidade dos vinhos, penso eu, devido às curvaturas do veículo e dos ressaltos do piso, por demais agitados comparativamente à “lesmice” da andadura das carroças de bois. Entretanto, por deliberação oficial, breve os vinhos passaram a ser engarrafonados e assim distribuídos.

Como sempre nas obras do Autor, não falta o registo académico, fornecendo minudente normativo ou legislação afim ao assunto, ocupando um capítulo inteiro e onde se dão a conhecer os forais, posturas, actas da vereação, acórdãos, autos, leis, alvarás, requerimentos, sentenças, diplomas, regulamentos, decretos, etc., desde a Idade Média até praticamente aos nossos dias.

Não faltam também referências literárias, particularmente versalhadas populares, para decorar o exótico das tabernas e tascos, ainda que nesta recolha sejam omissos praticamente os escritores neo-realistas, que os tinham por antecâmaras torpes e trágicas.

É claro que havia tascos e tascos, pois também a burguesia não os dispensava, ocupando espaços privilegiados no centro da cidade. Tal era o caso da Viela dos Congregados, frequentada, a espaços, tanto por engraxadores e cauteleiros, quanto por empregados da banca, dos seguros e do comércio, que não só neles almoçavam, como a meio da tarde iam molhar o bico e comer qualquer petisco. E assim também ocorria nas adjacências das rua do Bonjardim, da Madeira, de Cimo da Vila, da rua Chã, ao redor da Praça dos Poveiros e do Jardim de S. Lázaro, do Marques do Pombal, Jardim da Cordoaria, Campanhã, etc.

Chegado aqui, não será demais recordar que os irmãos Borges, antes de serem banqueiros prestigiados (Banco Borges & Irmão), começaram com um estabelecimento de venda de vinhos, ao copo, juntamente com tabacos, fósforos e lotaria. Mais tarde, o local, que se situava por baixo do antigo Hotel Aliança, frente à Brasileira, passou à condição de Bar de elite, onde era possível acertar intimidades com donas espampanantes, fumadoras de cigarros coloridos metidos em longas boquilhas…

Havia também quem assegurasse que, em certa confeitaria de classe, não muito distante, não faltavam madames que bebiam em chávenas de porcelana chá da videira…

Não era pois em vão que Salazar dizia que o vinho dava o pão a um milhão de portugueses, dado que tal líquido, dir-se-ia, era tão consumido como a água, senão mais!

Segundo o levantamento que o Autor nos apresenta entre 1755 e 2001/2007, dele retiro o informe de em 1924 haver o registo de 1862 estabelecimentos de venda de vinho e no período de 2001/7 apenas 89.

A razão desta quebra tem a ver com muitos factores, desde a deslocação do operariado para outras zonas da cidade mais adaptadas à indústria e depois com o fim desta, à eliminação das ilhas  e da emigração dos habitantes para os bairros sociais e, finalmente, com a evolução económica, cívica e do ensino, com novos hábitos adquiridos, e principalmente com a desertificação da cidade.

Abordando o problema da desertificação, que é um dos assuntos que o Autor integra nesta obra, há muito defendo que quem primeiro o acelerou foi o comércio local do centro da cidade, o qual, pouco a pouco, foi adquirindo os pisos superiores dos seus estabelecimentos comerciais até fazerem deles armazém ao alto dos seus produtos. Sirvam de referência as ruas de 31 de Janeiro e de Santa Catarina, outrora repletas de habitação familiar, escritórios e consultórios desaparecidos, até ao ponto de hoje, na primeira, segundo estatística já com alguns anos, haver apenas 2 famílias residentes!

A seguir temos o efeito da aquisição do automóvel, em consequência da melhoria dos tempos, antecedido pelas Vespas e Lambrettas. A sua aquisição, pagável na maioria dos casos em cinco ou seis anos, para além do status que implicava, senão mesmo a razão pelo qual se adquiria, era coisa para durar uma vida ou quase, pensava-se. Como tal, às vezes, o automóvel era mais estimado do que um familiar, porventura, mulher ou filho! A cidade, porém, não possuía prédios de raiz com garagem. Para os proprietários era uma dor de alma ver o carro todo o dia na rua, à chuva e ao sol, sujeito a ser rapinado ou riscado pela canalhada. Garagens de recolha havia, mas com um horário pouco ajustado: fechavam a partir das sete ou das oito à semana, e ao domingo todo o dia. E custavam dinheiro. Parques de estacionamento não existiam, julgo, aliás, que o primeiro a construir-se com essa designação foi o Silo Auto, mas ficava ainda mais caro do que as garagens de recolha.

Vai daí, muitos portuenses passaram a viver no periférico do burgo, onde não só os alugueis eram mais baratos, como as casas ou apartamentos novos, e já com garagem construída ou a passar por isso, através de um coberto no terreno anexo ao edifício.

Claro que estamos já nos anos 60 e alguns, em plena progressão liberal, ligada ao início das guerras no ultramar, ao surto da emigração para a França e para as Colónias, às   remessas dos emigrantes, proporcionando um crescimento anormal da economia, com toda a gente a adquirir os fundos Fides, Atlântico ou Torralta, os quais proporcionavam retornos elevados aos subscritores, para não falar na D. Branca, não fazendo ideia nenhuma do risco que corriam, tal como os avanços em numerário em patos bravos construtores ou nos aumentos de capital de acções em bolsa, para os quais os subscritores, com recurso às assinaturas de familiares, empregados e amigos, faziam bicha aos balcões dos bancos. Como disse alguém, bastava imprimir papel que o mercado comprava e engolia…

Enquanto durou foi um fartote e possibilitou a compra de habitação a muita gente, sempre, todavia, no periférico do burgo, em razão dos preços dos terrenos e da construção, para mais servidos com transportes, desde linhas de caminho de ferro a autocarros.

Entretanto, começou a guerra colonial e isso também teve o seu peso na desertificação da cidade. Porém, a grande sangria viria a ocorrer a partir do momento em que a banca, no geral, começou a emprestar dinheiro para a aquisição de habitação própria, até aí praticamente sob o domínio exclusivo do Montepio, da Caixa e depois do Crédito Predial, e em condições pouco acessíveis.

Foi outro fartote, devido à inflação dos empréstimos que cobriam a habitação, o mobiliário, as cortinas e nalguns casos até o automóvel! Todo este investimento foi canalizado, pelas razões supra apontadas, para os espaços de V. Nova de Gaia, Matosinhos, Gondomar, S. Mamede, etc.

Em 1930 eram 229.000 os habitantes do Porto, em 1940, 258.000, em 1950, 281.000, em 1960, 303.000, em 1970, 301.000, em 1980, 327.000, em 1990, 302.000, em 2000, 263.000 e em 2010, 237.000!

Esta estatística é muito curiosa, tendo em conta que, após Abril,  regressaram a Portugal mais de 600.000 novos habitantes, provenientes das ex-colónias, para não falar na imigração proveniente do Brasil e dos PALOP que se seguiu nos anos imediatos, o que de alguma forma, a meu ver, vem a explicar os números registados em 1980 e a consolidar a ideia de que a tendência desertificadora do Porto já ocorria desde décadas anteriores.

Hoje o êxodo continua e agravado pelas novas formas de viver, desde logo por nos confrontarmos com outro ciclo de emigração, depois porque muitos dos empregos possíveis passaram a conflituar com a residência, e entre uma coisa e outra troca-se o local de habitação pelo local do emprego, como está a acontecer na maior parte dos investimentos de grande vulto no interior. Por outro lado, não faltam cidades na interioridade, também com grandes quebras de habitantes, que oferecem condições deveras vantajosas aos casais novos que nelas se queiram fixar. E temos ainda as uniões de facto ou de circunstância, sem responsabilidades de filhos, às vezes, cada um a viver com os pais, e a idade avançada da maioria dos habitantes, muitos dos quais foram empandeirados, desculpem a expressão, para lares de terceira idade pela família, a maioria dos quais também fora da cidade, sem ninguém se preocupar se convivem uns com os outros ou se apenas passam o tempo semi-adormecidos, por via do horizonte costumeiro ou da medicamentação que tomam para o efeito. Já agora, atrevo-me a relembrar a situação criada em muitos hospitais, onde muitos idosos, em situação de alta, permanecem abandonados pelos familiares ou sem ninguém que os recolha.

Se calhar estou a ser cínico, mas seria bom que de uma vez por todas olhássemos mais para o real quotidiano e porventura menos para o passado, porque esse, “dixit” o Autor, não retorna.

A acrescer a tudo isto temos ainda os locais das novas faculdades, construídas nos extremos do burgo, a fomentar a fixação dos instruendos no além da circunvalação, num caso, e no outro na outra margem do rio, além, claro, dos baixos índices de natalidade.

Com estas e com outras, as habitações mais antigas da cidade não só estão abandonadas como ameaçam ruina, pelo menos nos interiores, apesar de, tanto quanto parece e se anunciou vai para mais de uma dúzia de anos, a Sociedade de Reabilitação Urbana em Portugal – a Porto Vivo SRU, assegura ou pretende assegurar que a reabilitação urbana de edifícios antigos está instalada de pedra e cal no Porto. Todavia, tanto quanto julgo saber, apenas por iniciativa privada, muito esporádica, e preferencialmente para a construção de hostais/acolhimento destinados aos turistas. Fica-nos a expectativa de o governo vir a criar iniciativas, de há muito também prometidas, para incentivar a reabilitação.

Entretanto e ironicamente, o centro histórico e adjacências está repleto de tascas e adegas para os turistas conviverem, a par da malta das “movidas” e somente habitado por idosos, muitos dos quais prisoneiros das suas habitações, por não poderem subir e descer as escadas construídas a pique como era então de uso.

Encerrado este assunto, passamos a outro, às ilhas, que constituem um outro livro dentro do mesmo.

Como sabemos, as unidades industriais concentravam-se ao redor das cidades principais, dado que essa concentração oferecia garantias de mão-de-obra em abundância a par de mercados consumidores próximos. Em certa medida, foi a implantação das indústrias nas cidades que provocaram o crescimento destas, pois foram elas que desenvolveram a emigração das populações do interior do país, sendo estas a verdadeira origem do operariado citadino habitante das ilhas.

Até ao final do século XIX a habitação operária era construída essencialmente por promotores privados e, fosse sob a forma de ilhas, no Porto, ou de pátios, em Lisboa, caracterizava-se pela má qualidade.

No que refere ao Porto, segundo a avaliação que o Autor nos apresenta, datada de 1939, a concentração maior das ilhas era na freguesia do Bonfim, 353, com 3887 habitações e um total de 13.904 habitantes por elas distribuído, seguido da freguesia de Cedofeita, com 236 ilhas e 2.390 habitações para 7.685 habitantes.

Também aqui posso dar a minha achega, pois todos os fins de semana passava-os com a minha avó e tia, que moravam no Largo da Maternidade e onde havia um bairro ou conjunto de ilhas, entre a Maternidade e o cemitério dos ingleses, sob o nome, salvo erro de Alexandre e de outras mais na rua da Maternidade e ao redor, nas ruas do Breyner e de Miguel Bombarda.

No caso do dito bairro, aquilo era um aglomerado imenso de casas sem qualquer planificação, distribuídas por todos os pontos cardeais, umas totalmente primitivas, com o chão de terra batida, o que levantava a necessidade de, quando alguém nelas falecia, tapar-se-lhe os orifícios do nariz e dos ouvidos com algodão, a fim de evitar o trânsito de formigas, outras já com um arremesso além de tal modéstia. Luz era a dos candeeiros de petróleo. Água era a do fontanário existente no largo e que as mulheres recolhiam em recipientes. Do mais não recordo de ouvir, porque sobre o ver nessa altura não reflectia e, além do mais, era um jogador de pião ( quem tem canelas que cuide delas porque o meu pião dá cabo delas…) que confraternizava com os demais da minha idade, mas que estava proibido de entrar no bairro, embora me fartasse de lá ir na sequência das brincadeiras e da natureza da demais catraiada.

A eliminação das ilhas era anseio antigo e pode-se dizer que conheceu quatro períodos, distintos; durante a monarquia, a 1ª República, o Estado Novo e pós Abril.

Assim, em Maio de 1884, o deputado Fuschini apresentava um projecto de lei visando a construção de casas económicas destinadas às classes mais desfavorecidas, sob a alegação que deve a ordem económica tentar desfazer as desigualdades  flagrantes entre as classes, e fomentar o justo equilíbrio  das condições, sem a qual a ordem e a paz pública são apenas superficiais e sujeitas a comoções perigosas e violentas.

É provável que esta iniciativa, aparentemente dirigida ao empreendedorismo privado, de parceria com o Estado, adviesse do exemplo proporcionado por algumas entidades privadas, como a sociedade Silva, Esteves, Lopes & Companhia, que no Campo de Ourique, construíra quatro prédios e trinta e duas casas, ao que parece “abarracadas”, no ano de 1880, isentas de contribuição predial e destinadas aos operários. Ou a Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, que construiu 49 habitações em 1873 e outras 18 em 1890. Estas habitações estavam agrupadas em seis prédios de três pisos, construídos em terrenos possuídos pela fábrica. Em 1885 outra fábrica têxtil, a Companhia Lisbonense de Estamparia e Tinturaria de Algodões, construiu 72 habitações, distribuídas por 12 prédios de três andares, com seis apartamentos cada edifício, em terrenos possuídos por si. Também Francisco de Almeida Grandella, o dono dos Armazéns com o seu nome e de uma fábrica de confecções, em 1910, construiu um bairro composto de 86 habitações, no qual se incluía já uma creche e uma escola, uma novidade para a época, ou não fosse ele um republicano credenciado.

Outro promotor de habitação social ou a passar por isso, foi o jornal O Século que, por iniciativa do seu director, construiu 90 habitações para os seus empregados.

A verdade é que o dito projecto de Fuschini, que estabelecia isenção de contribuição predial por vinte anos e facilidades na aquisição e urbanização de terrenos, entre outras regalias aos empreendedores, na condição das rendas cobradas fazerem parte dum pagamento resolúvel ao fim de vinte e cinco anos, nem sequer mereceu a dignidade de ser discutido na Câmara dos Deputados.

No Porto, em 1899, as ilhas, construídas de forma precária, sem estruturas de qualquer espécie, abrigavam cerca de metade da população. As condições habitacionais eram de tal ordem que motivaram a quarentena da urbe por Ricardo Jorge, dando-as como alvéolos imundíssimos, húmidos e sem luz, e causa determinante dos focos infeciosos da peste bubónica.

Em razão desta situação, a Câmara do Porto passou a formular as primeiras tentativas sérias para impedir, ou pelo menos controlar, a construção de ilhas, impondo a partir de 1905 a apresentação de plantas, cortes, alçados, etc.

Não resultou. Os baixos salários e a incapacidade dos promotores, quer privados, quer estatais, em erigir construções de baixo custo, não tiveram os resultados esperados. O pouco que se construiu era de muito má qualidade, pelo que as ilhas continuaram a construir-se ilegalmente e a progredir assustadoramente. Aliás, os próprios empregadores edificavam-nas em terrenos seus, por norma, atrás das suas unidades fabris. E a câmara fazia de conta que não via, limitando-se a regulamentar o que ninguém cumpria.

Não obstante, à  semelhança de Lisboa, também o Porto teve por empreendedores de habitação social algumas fábricas de maior dimensão, indústrias têxteis na sua maioria. Assim, a Fábrica do Jacinto, a Fábrica da Areosa, a Companhia Fabril de Salgueiros, etc. Todavia, é a iniciativa filantrópica do jornal “O Comércio do Porto”, promotor de uma subscrição pública entre a comunidade portuguesa emigrante no Brasil, que verdadeiramente dá o arranque para a construção de bairros operários sob a designação de “colónias operárias”.

Data de 1901 a construção da primeira colónia operária, então construída na Foz do Douro. Pouco melhor do que uma ilha, era uma pequena fila de oito habitações de um único piso. No mesmo ano foi construída a colónia do Monte Pedral, que consistia numa banda de 26 habitações de dois pisos. Cada habitação era composta de uma sala, cozinha e um quarto no rés-do-chão, dois outros quartos no 1.° andar, um sótão e uma casa de banho na cave. Cada casa tinha um pequeno jardim.

Em 1903 foi construída a colónia de Lordelo do Ouro: uma banda de 29 habitações de um único piso, cada uma delas com sala, cozinha e um quarto.

Finalmente, em 1904, foram construídos os Bairros do Bonfim e de Serpa Pinto. Nestes dois bairros foi adoptado um novo tipo de casa; as habitações estavam agrupadas em grupos de quatro, formando um único edifício no meio de uma parcela de terreno dividida em quatro partes iguais. A cada habitação correspondia um ângulo do edifício, com duas fachadas livres, e um jardim independente. Cada uma destas habitações, de dois pisos, era composta por uma sala de estar, uma sala de jantar, cozinha, dois quartos, e um pequeno jardim.

A República, por sua vez, atenta ao problema, fartou-se de criar legislação, mas só com a ditadura de Sidónio Pais, através do Decreto 4137, de 25/4/1918, é que se construiu o primeiro bairro social no Porto, que tomou o seu nome, ainda que mais conhecido por bairro da Arrábida. Era constituído  por habitações unifamiliares e acabou construído pelo Estado, dado o desinteresse manifestado pelos investidores privados em participarem em tal iniciativa.  Depois de demolido, por via da construção da ponte,  os seus habitantes foram transferidos para o Bom Sucesso, na Boavista.

Entretanto, na  década de 1910, a Câmara Municipal do Porto teve uma acção pioneira na construção de habitação municipal em Portugal. Inspirada no projecto das colónias operárias construídas por “O Comércio do Porto”, arrancou com a construção de quatro bairros para as classes trabalhadoras, sob a forma de conjuntos de quatro habitações agrupadas, de um ou dois pisos, cada uma delas com um pequeno jardim privado. A saber: a colónia de Antero de Quental, construída em 1914, com 28 habitações, seguindo-se os Bairros de Estêvão de Vasconcelos, também em 1914, com 90 casas, de Viterbo de Campos, em 1916, com 64 casas, e Manuel Laranjeira em 1917, com 130 casas, totalizando 312 habitações.

Um avanço, em todo o caso não mais do que uma gota de água num copo, tendo em conta as 12.000 habitações existentes em ilhas e que mais uma vez vão ser foco da proliferação do tifo logo seguido da gripe pneumónica.

Com o Estado Novo, o problema agilizou-se, ainda que à mesma de forma lenta e insuficiente e de algum modo dirigido mais à classe média do que ao operariado. Assim o Decreto-Lei n.º 23 052, de Setembro de 1933, que cria o programa de habitação das casas económicas, caracterizadas por habitações unifamiliares, de um ou dois andares, independentes ou geminadas, cada uma com jardim. Construídas directamente pelo Estado, que controlava todo o processo, desde a aquisição dos terrenos à construção,  distribuição das casas e gestão dos bairros.

O programa era financiado pelo Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, do Ministério das Corporações. A estrutura coordenadora de todo o processo, a nível nacional, pertencia à Secção de Casas Económicas, um departamento do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, que era responsável pelas várias fases do processo.

Tais habitações eram destinados a funcionários públicos e a trabalhadores filiados nos sindicatos nacionais e tinham por modelo uma visão habitacional ruralista, baseada em valores de vida tradicional da população portuguesa. De certa forma, a família e a posse de propriedade tornaram-se temas básicos do discurso ideológico do regime.

No Porto, após a realização do inquérito às ilhas, em 1939, a Câmara Municipal estimou que das 13.000 casas que nelas existiam, apenas 3700 podiam ser melhoradas; todas as demais tinham de ser demolida e substituídas por novas habitações.

Em 1938, a municipalidade estabelece a construção do Bloco Saldanha, um edifício de 115 habitações, erigido na vizinhança de S. Vítor, perto dos locais da residência das pessoas que ia realojar, em forma de U e com um pátio interior.

Chegado aqui, pelo facto de ter morado na rua Duque de Palmela, por acaso em boa vizinhança com Manuel Alegre, Eugénio de Andrade e Nuno Teixeira Neves, e conhecer o tipo de pessoas residentes do bloco, não digo que não tivesse realojados provenientes da rua de S. Victor, mas na sua maioria eram portadores de outro estatuto.

Não correspondendo ao modelo ruralista de habitação favorecido pelo regime, desde logo o bloco foi contestado, quer ao nível da própria municipalidade, quer entre esta e o Ministério das Obras Públicas, que era quem canalizava o financiamento e superentendia no que respeitava à forma e à localização dos bairros camarários.

No caso em questão, o problema foi ainda agravado por alguém se ter lembrado da existência de um bloco de habitações similar, sob o nome de Karl Marx, erigido em Viena!

Apesar de tudo o Bloco Saldanha sobreviveu, e ainda hoje constitui um bom modelo de bairro, mas ficou bem assente a recusa do Ministério das Obras Públicas para qualquer tipo de assistência a modelos fora do convencionado.

Entre 1933 e 1950, o Estado Novo construiu 12 bairros, compostos por moradias unifamiliares, com quintal, de renda resolúvel. A saber: Ilhéu (1935), Condominhas (1937), Amial (1938 – 1ª fase), Azenha (1939/1941 -1ª e 2ª fases), Paranhos (1939/1941 – 1ª e 2ª fases), Ramalde (1939/1941 – 1ª e 2ª fases), Costa Cabral (1940), S. Roque da Lameira (1942) e Gomes da Costa (1950). Daqui resultaram 1662 novas habitações, de diferentes tipologias e com diversos tipos de rendas.

Por sua vez, as iniciativas realizadas pela Câmara Municipal do Porto durante este período traduziram-se na construção de um outro conjunto de bairros, que promoveu mais 1094  habitações. Assim, entre 1940 e 1956, foram construídos, além do já referido Bloco de Duque de Saldanha, os bairros de Rebordões (1942), de São Vicente de Paula (1950/1952/1954 – 1ª, 2ª e 3ª fases), Rainha D. Leonor ou das Sobreiras (1953/1955 – 1ª e 2ª fases), São João de Deus (1944/1956 – 1ª e 2ª fases), Condominhas (1955) e Pereiró (1956).

Estes dois conjuntos, o governamental e o autárquico, não foram todavia suficientes para fazer face às necessidades. As 1662 habitações de iniciativa governamental e as 1094 construídas pela autarquia – 2756 no total – estavam a uma distância enorme comparativamente às 16.000 habitações apontadas no relatório de Azeredo Antas ou com as 8000 que, em 1939, os técnicos camarários defendiam ser necessário construir.

Em Maio de 1955, José Albino Machado Vaz, então presidente da câmara, pediu ajuda ao Governo para “modificar radicalmente o alojamento popular”.

Um ano depois, arrancava o Plano de Melhoramentos da Cidade do Porto, que previa a construção, num prazo de dez anos, de 6000 novas habitações económicas.

Os fogos constituíram-se em blocos colectivos,  fora das directivas iniciais por razões de custo, e foram construídos nas freguesias periféricas. Simultaneamente estava  previsto a reabilitação das ilhas que fossem  possíveis de recuperar, todavia, que eu saiba, nenhuma remodelação ou melhoramento foi realizado nas que subsistiram.

O programa foi prolongado por mais cinco anos com o objectivo de se construírem mais 3000 casas. No final do prazo, só estavam concluídas pouco mais de metade. E só depois do 25 de Abril se atingiu o número previsto em 1966, mas já fora do âmbito do Plano.

Antes de prosseguir nesta matéria no período que se segue, no após o 25 de Abril, é altura de se fazer uma breve avaliação sobre o que foi feito, ainda que sob o risco de vir a ser considerado politicamente incorrecto. E isto pela razão simples de que, com todas as insuficiências e oportunismo político, o programa do Estado Novo no que diz respeito a habitação social, mesmo com os poucos operários aderentes por incapacidade financeira, foi o que melhor se realizou, quer em termos de qualidade construtiva, em razão da qual ainda hoje sobrevivem, quer em termos de privacidade e independência, cada um em sua casa, quer, finalmente, em estruturas, nomeadamente de escolas primárias construídas de raiz em cada bairro, havendo um que até teve duas, muitas das quais se encontram ainda em funcionamento, a par dos arruamentos, linhas de eléctrico e autocarro, etc.

Obviamente que tudo isto teve implicações profundas na política habitacional da cidade, nomeadamente através da perda progressiva da população das freguesias centrais em favor das mais periféricas, caso do Bonfim, Campanhã, Lordelo, etc. Mas também teve aspectos positivos dado que, a meu ver, a cidade expandiu-se, rasgaram-se vias, foram-se construindo edifícios nos espaços libertos, enfim, foi-se amarrando cidade à volta dos bairros.

Com o 25 de Abril a pressão respeitante à habitação social foi enorme e os terrenos disponíveis escassos e praticamente desertos. Consequentemente, os bairros sociais foram construídos de tal forma que vão de um extremo ao outro do burgo. O Bairro de Manuel Carlos Agrelos (Aldoar) nasceu na fronteira com Matosinhos. Por sua vez, o Bairro do Lagarteiro nasceu num espaço tão liberto de urbanidade que perto dele surgiu o Parque Oriental. Está na não-cidade, local das mais elevadas taxas de pobreza e exclusão.

O mais carismático, todavia, foi o Bairro do Aleixo, tornado em breve num hipermercado de droga: era composto por cinco edifícios, de 13 andares cada. Uma enormidade! A maioria das pessoas que lá foram colocadas eram provenientes da Ribeira. Inaugurada a primeira torre a 13 de Abril de 1974, cerca de ano e meio depois a segunda, ainda incompleta, foi tomada de assalto por uma população que lá se instalou.

Hoje existem apenas três torres, dado que as outras duas foram demolidas respectivamente em 12/2011 e em 4/2013, de acordo com o preconizado na campanha eleitoral de Rui Rio, fundamentando tal decisão pela necessidade de acabar com o tráfico da droga e das péssimas condições de conservação dos edifícios.

A maioria dos moradores não aceitaram as demolições e apesar de terem recorrido para os tribunais, defendendo a sua “casa”, não lograram êxito. Uma moradora idosa afirmou mesmo sentir-se bem no Aleixo, um lugar de onde só queria sair “para o cemitério”.

Outros, porém, aceitaram e aceitam a saída na esperança de vir a possuir melhores habitações e maior sossego. Uns e outros não acreditam em solidariedade a seu favor, considerando que a verdadeira razão para o processo de demolição adveio da valorização dos terrenos da zona onde o bairro foi construído, agora muito atractiva para investimento e de há muito praticamente cercado por condomínios de classe média alta. E que assim deve ter sido, temos o facto de para o local ter-se constituído um projecto imobiliário pelo consórcio Invesurb, conhecido como o Fundo Imobiliário do Bairro do Aleixo, constituído pela Mota-Engil (27%), o empresário António Oliveira (27%), a Câmara Municipal do Porto (22%) e duas sociedades do Grupo Espírito Santo, a Rioforte e a Cimenta (24%). Enfim, um empreendimento de luxo. Se agora se vai realizar ou não, com a mudança da autarquia e a falência do Grupo Espírito Santo, para já é uma incógnita, mas não diminui em nada a suspeita de um “arranjo” a pretexto da droga e das más condições das construções e tão pouco alivia a angústia dos que ainda permanecem, sem saber quando terão de sair e onde vão parar.

Para quem lê os artigos e as obras de Helder Pacheco sabe bem que, desde há muito e de forma recorrente, é um paladino na defesa dos habitantes remetidos para os bairros sociais, considerando não só os malefícios resultantes do seu desenraizamento, como as implicações que os mesmos tiveram na urbanidade citadina.

Decerto que, em parte, tem razão. E digo, em parte, porque o comportamento do ser humano é imponderável. No caso em questão, se há pessoas magoadas pela mudança dos locais de habitação, onde viveram uma vida e possuíam os seus locais de convívio colectivo, outras houve que não se importaram nada com o abandono de tais  locais, antes mesmo transferiram-se elas próprias para os bairros, à força, como aconteceu no assalto ao Aleixo! E talvez ainda mais espantoso, é o caso daquela moradora duma das torres sobreviventes do Aleixo, onde a colocaram há uns anos, que dela não quer sair, a menos que seja para o cemitério!

O problema destes habitantes, no que diz respeito ao desenraizamento, é o mesmo  dos emigrantes, mas com a vantagem de não mudarem de língua e de permanecerem na cidade onde sempre viveram. E, obviamente, com muito ou pouco custo eles adaptaram-se e criaram novos convívios, passando a defender o local para onde foram remetidos com os mesmos argumentos daquele outro que foram obrigados a abandonar.

A questão fundamental, a meu ver, é a forma política como se decidem estas coisas, não cuidando do futuro e bem-estar das gentes que transferia, as quais deviam ter sido acompanhadas na nova realidade através de uma formação pedagógica e profissional, uma bolsa de empregos, mesmo que fosse algo distante, policiamento, escolas, etc. Ninguém os acompanhou ou acompanha. Deu-se-lhes as casas e a obrigação, com a publicidade política à mistura pelo grande feito, acabou aí.

Ao princípio, no tempo das comissões de trabalhadores, moradores e outras, faziam-se reuniões, as pessoas eram convocadas para ajuizar o que se deveria fazer, tentando resolver os problemas. Bem rapidamente isso acabou. A confusão era muita pela exaltação dos princípios ideológicos, num alarido frenético que tudo punha em causa.

O que de melhor resultou sobre esta matéria, penso eu, ainda que com algumas dúvidas por esclarecer,  foi a criação do SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) que, mais do que proporcionar a auto-construção, disponibilizou técnicos, criou responsabilidades e organização entre os futuros moradores, orientando-os e apoiando-os nas obras. Não durou muito o SAAL, mas ficaram as associações de moradores para dialogar com as câmaras, o que nem sempre foi positivo, mercê das mudanças ideológicas dos autarcas.

Entretanto, a indústria local desapareceu. E esta população, que não se qualificou, em vão procura trabalho ao redor do novo local onde vive, condicionando-se a um existir concentracionário, vazio de significado. São párias excluídos da economia e da cidade, embora tenham adquirido a consciência de clã em relação ao bairro, motivo pelo qual muitos o defendem contra tudo e contra todos.

Todavia, a maioria dos bairros possui uma existência serena, tranquila, porque nem todos são iguais, tal como os habitantes que neles estão fixados.

Com estas e com outras, não me atrevo a vaticinar o futuro, mas não posso deixar de recordar que a Câmara Municipal do Porto é um dos maiores proprietários de habitação do país, com perto de 13.000 fogos, o que estabelece a seguinte relação: aproximadamente um em cada sete ou oito portuenses é inquilino da autarquia!

E entretanto, segundo fonte credível que li não sei onde e já há algum tempo, todos os dias entram e saem do burgo milhão e meio de viaturas – o que nos remete para a indiscutível habitação em zonas periféricas e para a necessidade de a cidade, cada vez mais, ser “cortada” no miolo ou nas franjas por novas vias de acesso para evitar os congestionamentos em horas de ponta.

Enfim, o Porto dos transeuntes cresce na proporção directa dos que da cidade se retiram. Consequentemente, o Porto diurno é uma confusão permanente, com filas intermináveis de trânsito, onde abundam os mastodônticos jeeps que estão na moda e ao que parece as senhoritas não dispensam.

Há quem assegure que a população flutuante com que nos confrontamos compensa a quebra dos residentes.

Será? É até provável que constitua um mal menor, porque se considerarmos a previsão que o Plano Auzelle dava para o Porto de 500.000 habitantes no final do milénio passado, penso que a cidade se transformaria numa espécie de Manhattan em construção ao alto.

Helder Pacheco, que desde há muito sobre esta matéria se pronuncia, advogando outro tipo de urbanismo, no presente título recorre a dezenas de depoimentos de especialistas da matéria, estudiosos do urbanismo  de Madrid, Paris, Londres, etc. É bom conhecer o que se passa lá fora e a forma como se enfrenta o problema. Creio, porém, que não só cada espaço urbano tem problemas específicos, desde logo a partir da sua dimensão territorial, como a economia que os sustenta é variável de uns para os outros.

O Porto tem apenas 41,42 km² de área! Comparativamente às grandes cidades europeias, a sua dimensão é aproximadamente a de uma freguesia ou quarteirão. E além do mais é uma cidade sitiada: num lado pelo rio, no outro pelo mar e, como se isso não bastasse, criou-se uma estrada de circunvalação, feita fronteira, que acabou por funcionar como um garrote!

Se a previsão de Auzelle se concretizasse, estaríamos hoje com mais do dobro dos actuais habitantes, seguramente sem uma parcela de terreno livre, com os parques da cidade mais reduzidos ou miscigenados com habitação, enfim, tudo ao monte e fé nas alturas e muito mais vias para automóveis e transportes público. Estaríamos melhor ou pior? Não sei.

Para Helder Pacheco este livro, à semelhança dos demais que tem publicado, seja sobre tabernas e tascos ou intimidades e tradições populares portuenses, assenta num pressuposto básico e persistente: o convívio fraterno das nossas gentes que ele considera ter deixado de existir por via das alterações urbanísticas.

O princípio de convívio tem que se lhe diga, pois se o restringirmos ao tempo das ilhas, onde as mulheres se sentavam na soleira das portas a catar as lêndeas da filharada e a falar com a vizinhança, tal como o dos tascos e tabernas, onde os homens jogavam o dominó ou a sueca aos copos, esse tipo de convívio acabou, apesar de algumas pequenas comunidades masculinas sobreviverem em alguns jardins. Como acabou o convívio que se gerava nas habitações, com meia dúzia de andares ou apartamentos, onde toda a gente se conhecia e comunicava, nem que fosse para pedir uma pitada de sal que, as mais das vezes, era um álibi para estabelecer relação mais prolongada.  Hoje, tal vivência, em habitações com dez, doze e mais andares e outros tantos apartamentos por piso, é impossível. Pode-se à vontade viajar no elevador com um condómino ou um ladrão que ninguém dá por ela. Ninguém conhece ninguém!

Mas, por outro lado, nunca, como hoje, se estabeleceu uma dimensão convivial como aquela que existe, a todos os níveis etários, através das redes sociais, do facebock, da internet, bloggers, etc. Então no caso dos jovens chega a configurar-se como uma dependência pandémica. De manhã à noite sobrevivem com o auricular nos ouvidos e permanentemente a enviar e a receber mensagens. Falam sozinhos, se calhar para combinar a “movida” para o fim de semana, que vai das noites de quinta a domingo, que é uma outra forma inovadora de convívio e onde tudo pode acontecer, desde apanhar uma piela a uma companhia para a noite, ou para acertar outra “movida” em espectáculo musical promovido por uma das empresas de telecomunicações…

Aqui chegado, recorro à transcrição do texto que se segue: Porque o passado passou (…) não adianta aspirar recuperá-lo, porque nada do que nos antecedeu é recorrenteNão sendo, portanto, um livro apenas sobre os tascos do Porto, utiliza-os como ponto de partida para alguns caminhos de conflitualidade na compreensão do que ocorreu na vida portuense ao longo dos últimos dois séculos (…) às situações ainda identificáveis bem se poderia aplicar a noção de “arqueologia cívica”,  já que as tabernas  integradas numa herança profunda são hoje não mais do que isso, testemunhas perturbadoras de um tempo extinto. De uma cidade que já não existe…

Ao que me permito acrescentar: nem a cidade nem as gentes, porque hoje o que sobrevive é apenas a memória do passado, irreversível, porque essa é a lei da natureza e do percurso do homem. Entre pais, filhos e netos, interpõe-se o conflito das gerações através de novas formas de viver, de instrução, habitação, de vestir e calçar, de anseios, de liberdade e também de vícios. Tudo mudou e muda. Os cinemas fecharam. As revistas teatrais desapareceram. O Jardim da Cordoaria, tal como a Av. dos Aliados, sobrevivem hoje como um pesadelo relativamente ao que eram. O emprego, que na maioria dos casos, era para uma vida, hoje, quando o há, é provisório. Antes a instrução ficava-se, quando muito, pela quarta classe, já que os liceus e a universidade eram só para alguns, hoje, quase todos os jovens com aproveitamento são universitários. Doença que implicasse internamento no hospital, de certeza era para morrer, pelo menos assim se pensava. Hoje, as urgências entopem-se com doentes que perderam o medo. Os casais de então tinham um mínimo de 2 filhos e no caso dos rurais se não tivessem o dobro e mais, dificilmente conseguiam o arrendamento de um terreno rural.

Conclusão: a marcha do tempo é inexorável, tal como as mudanças que ele acarreta e, entretanto, estamos em risco de desaparecer, dada a diferença abismal entre a natalidade e a mortalidade dos portugueses. Estamos a falar do Porto, mas o país está igual, particularmente no Alentejo, Minho, Trás-os-Montes e Beiras. E tanto ou mais está a Europa, berço da civilização ocidental, agora gangrenada pela velhice, pela impotência, pela imoralidade, pela iliteracia e pelas utopias. Para me valer dum livro duma grande senhora das letras portuguesas, Luísa Dacosta, estamos a morrer a ocidente.

Este é que é o nosso verdadeiro problema. Nesta perspectiva, estou muito mais interessado no futuro próximo, que é aquele que vai caber aos meus netos, do que no passado, que esse morreu e a lembrança dele irá morrer comigo.

Posto isto, para terminar e adoçar o paladar, temos os sabores, a gastronomia implantada no burgo, aqui em detalhe minudente, como aliás os demais assuntos que este livro, que é quatro ou cinco em um, documenta. Desde as iscas do caçoila borrada, ao bacalhau e polvo, sardinhas e cosido à portuguesa, à cabeça de pescada cosida ou em filetes, ao frango, ao porco e às tripas, ao coelho e aos ovos a cavalo, mais a vitela, o anho e o cabrito, é um não acabar de sabores revividos, também eles já perdidos. Antes de mais, porque um dos segredos da boa comida era resultante da confecção em fogões a lenha ou nos fogareiros. E nalguns casos ao uso do unto ou banha de porco, que era o que se usava nos anos 40, durante a guerra e no demais. Depois porque o bacalhau, que era de cura solar (amarela) nos estendais em Aveiro e nos terrenos atrás da Circunvalação, no Porto, hoje é metido em mangas/tuneis e secado através de potentes ventoinhas. Os filetes de pescada que eram um espectáculo no Aleixo, tal como o empregado de mesa que descia as escadas com os tacões, foram-se, tal como os preços de então, para nunca mais voltar, porque hoje a pescada, para menos congelada, vem de Espanha e dos mares do Sul, com paladar totalmente diferente. Dos frangos nem vale a pena falar, criados como são nos aviários aos milhares e cheios de antibióticos. E assim também os animais bovinos, igualmente de aviário ou de importação, alimentados a rações, dia e noite metidos em baias para ganharem peso, tal como os porcos. Quanto aos leitões, um horror!, são previamente cozidos, deslavados, metidos em frigoríficos e daí saem para os fornos, conforme os pedidos. Etc.

Talvez as tripas sejam o único prato onde ainda é possível encontrar sabor antigo.

Nunca a nova geração provou ou provará desta gastronomia. De resto já fez as suas opções,  identificando-se com a alimentação de plástico, tendo por ícones as pisarias e os Mcdonald’s.  Fora isto são as francesinhas, que se implantaram pelos emigrantes, o sushi, as tostas mistas ou sanduiches e as batatas fritas. Vinho nem pensar, só cerveja, coca-cola e gin.

Muito se fala aqui de tascas e tabernas e mais da gente que as frequentava, mas esquecemos outros desaparecimentos seguramente mais importantes. Por exemplo o dos bancos que eram o esteio da economia: do BPA, do Pinto de Magalhães, do BBI, do Tota & Açores, do Sotto Mayor, do Fomento, do Crédito Predial, etc., e das situações actuais do Novo Banco, da Caixa, do Montepio, do BCP, etc., para não falar no Banif, BESCL e quejandos, e do que isso acarretou em termos de desemprego e de perda de economias confiadas por gente, de todos os estratos sociais, nos já dados como falidos e encerrados.

As voltas que o mundo dá!

Concluindo: eis um novo livro de Helder Pacheco que, à semelhança de todos os demais, permanece vinculado ao passado e aos afectos da alma e do corpo, derrame de sentimentos nostálgicos de quem ama a urbe e as suas gentes, pela razão simples de se sentir e saber plenamente identificado com a idiossincrasia da cidade.

Gente que nunca brincou nas ruas, que nunca fugiu aos polícias da esquadra próxima, que nunca namorou num jardim, numa esquina, num beco, que nunca atravessou o rio Douro a nado, que nunca se dependurou num eléctrico, que nunca jogou a sameira nas guias dos passeios, ou delas fez medalhas nos carris dos eléctricos, é esta que temos no quotidiano e cujos filhos não são deles, são dos infantários. O resto são os outros – nós, os velhos!

Não sei que me deu para me alongar desta maneira, sabendo de antemão que, pelo excesso de caracteres é impublicável nos meus recursos habituais, sobrevivendo, quando muito, para o dia em que venha a publicar uma colectânea de recensões minhas.

Mas não resisti a reviver estes acordes sobre gente, lugares e acontecimentos que conheci, que estão dentro de mim e que renascem em cada leitura de obra de Helder Pacheco, independentemente das suas opiniões, incentivando-me até ao ponto de rechear os seus informes com os meus. Sempre que o leio, colho tanto prazer quanto enfrento um desafio intelectual e uma amargura. Porque eu também mudei: olho-me ao espelho e vejo-me um caco! Qu’é de mim?

Ramiro Teixeira

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~ por Helder Pacheco em 07/10/2017.

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