A lição do pretinho

Cristopher Lasch escreveu: «Uma cultura verdadeiramente moderna nunca se resumiu ao simples repúdio da tradição; pelo contrário, é da persistência dela que retirou grande parte da sua força». Estas palavras ajustam-se a uma cidade que se vê confrontada com a mudança. Que, ancorada na História da sua identidade, sofre o assalto da transformação e, aspirando à novidade, teme perder a alma.

O receio da quebra das referências que moldaram as comunidades no espaço urbano parece-me, todavia, um falso problema. Porque as modificações são possíveis sem trair o essencial. O carácter, a marca, a distinção. E a prova disso é o emblemático “O Pretinho do Japão”. Fundado há 70 anos, era sobrevivente da época em que as lojas do género adoptavam nomes exóticos como “Pérola de Nankim”, “Casa Oriental”, “Casa Xangai”, “A Pérola da Guiné”, etc. Ao longo do tempo vendeu de tudo, do bacalhau aos chás «à grama», do «melhor café» aos vinhos sortidos, dos arrozes aos frutos secos. Um mundo comestível. A granel.

Pois o «Pretinho» mudou de mãos e transformou-se de loja tradicional, à antiga, em loja tradicional à moderna. O quintal degradado converteu-se em jardim de aromáticas, esplanada e excelente recinto interior onde se lê: «Welcome to Paradise». Da loja da rua ao «Paraíso» das traseiras tudo é diferente, mas o espírito do lugar permanece intacto. Vende o mesmo, mas ampliado e renovado. E a mercearia continua fina. As montras e o símbolo habituais (o Pretinho carregado de embrulhos evolando-se no vapor aromático do café) lá estão. Como sempre.

Afinal no Bonjardim antigo encontramos a resposta à questão existencialmente gritada por aí: o Porto perde a alma? Com exemplos assim, associando inteligência, iniciativa e cultura, a resposta é fácil: só se deixarmos que isso aconteça.

©helderpacheco2017

~ por Helder Pacheco em 2017-11-19.

 
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