A minha drogaria

Jorge Luís Borges dizia que «Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso.» Assim é comigo andando pelo Porto. Sobretudo quando vejo edifícios há pouco decadentes a ficarem como novos. Há um, em Miragaia, que, sendo eu pequeno, já era ruína de uma casa seiscentista de que só existia a fachada. Pois está a ser reconstruída. E para mim, farto da degradação, ver reabilitar o Burgo significa entrar no Paraíso.

Todavia, em Portugal, pagamos por isso. A cada instante de felicidade segue-se o amargor. E as pancadas no (meu) coração são frequentes: conservador não militante, mas persistente, mantenho-me fiel a rituais: a farmácia de há anos, a livraria, o café, a paragem de autocarro, o automóvel. As mesmas horas das refeições. E por aí fora. Tudo ajustado aos ritmos herdados por ADN ou afeição aos sítios.

A minha drogaria é a Louzada, em S. Domingos. Nela me abasteço em sabonetes Lifebuoy e Lavicura (do Dr. S. Torres). Na Louzada vemos, desde a tabuleta de fora, em metal ao seu interior – de gavetas, gavetinhas, armários, balanças, pesos, medidas, secretárias – a loja dos anos 20 (e os ingleses faziam lá um filme de época impecável). Nela vende-se, a peso, à grama, bicarbonato, borato, parafinas, sulfatos, alvaiade e mil outras coisas inimagináveis no mundo virtual que nos rodeia. A Louzada é, por isso, cultura e património e espero que resista ao vendaval de destruição de lojas antigas que por aí campeia.

Em S. Domingos fecharam a Moura e a Couto. Acima, a das Taipas e mais acima, a dos Caldeireiros. E ao pé dos Guindais acabou a Nascimento. Um dia destes acordamos e do Porto profundo, cheio de sentido mas fora das normas da U.E., nada resta. Não penso que fosse inevitável, mas quem sou eu para me opor a isso? Afinal, vivemos numa época moderna.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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