Ainda S. Bartolomeu

Imaginem vestir 600 pessoas com trajos de papel confeccionados com a arte de alfaiatar. E arranjar voluntários para, durante meses, planificarem, talharem e coserem as indumentárias. E reunir figurantes para as vestirem e desfilarem até à Praia do Ourigo, com pompa e circunstância ou anarquia e humor, conforme as personagens. Conjugando o amor à causa da cultura, com tradição, solidariedade, orgulho bairrista e dedicação cívica. E, certamente, dádiva. Misturando tudo e adicionando maravilhamento, temos o Cortejo de S. Bartolomeu que, anualmente, percorre a Foz do Douro.

Esta festa ao apóstolo que, além de patrono de quem trabalha com peles, tem o condão de exorcisar os estados demoníacos, reveste particular importância. Porque reúne e sintetiza três tempos históricos e várias tradições: prolonga um milenar culto pagão das águas expresso no «banho santo»; revive, no séc. XXI, a romaria oitocentista com feira, merendeiros e forasteiros de perto ou de longe e representa, na sua feição actual, o exemplo perfeito de uma tradição inventada.

Inventada nos anos quarenta pelo incansável Joaquim Picarote e os seus amigos fozeiros, que nos legaram um cortejo com vestuário de papel único na Europa. Um cortejo e um espanto. Em época de indiferença, relações virtuais e solidões reais, comodismo tecnológico e uniformidade, ele afirma a diferença, a criatividade, o afã participativo, as conexões que cimentam o espírito da comunidade. E, céus! a alegria, oferecendo a milhares de pessoas aquele elemento tão ténue mas consistente chamado felicidade. Por um dia.

Sim. Este cortejo / festa / romaria e banho colectivo do S. Bartolomeu da Foz é um espectáculo de determinação e sentimento. E esta é a cidade dos nossos sonhos, afectos e fantasias. A cidade que ainda vale a pena.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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