Às vezes revolto-me

Nem é preciso ser bruxo, adivinho, futurologista. Nem deitar as cartas, ler a sina, consultar astrólogos. Nem sequer ser mais esperto do que os outros para antecipar o que iria passar-se. Antecipar o perigo, o risco, a anarquia, o salve-se quem puder patentes numa fotografia publicada no “JN” mostrando a Ponte de Baixo coalhada de gente em flagrante delito convivial com automóveis, autocarros e etc.

A «Ponte de Baixo» chama-se pomposamente «Tabuleiro Inferior da Ponte Luís I» e abriu ao público em 1886. Tinha passeios estreitos e faixa de trânsito adequados à época. Servia. Por ela passavam gado bovino, lanígero e suino. Cavalgaduras, carros de bois, trens, carruagens. A pé, o povo. Operários, carrejões, caixeiros, mulheres dos tabuleiros e passeantes entre as duas margens. Chegava para as necessidades. Mesmo assim, quando o trânsito automóvel começou a utilizá-lo, de cada lado havia letreiros dizendo: «Peões, seguir pelo passeio da esquerda.» Por razões de segurança.

Multidão amontoada como a foto mostrava só no desastre da Ponte das Barcas, de triste memória, em contraste com o entusiasmo de agora. É uma das minhas revoltas. E, sem pretender armar, já em 2013 denunciara no “JN” esta situação ultrajante. E explicava que só o fundamentalismo (não islâmico, mas patrimonial) impedira a construção de uma ponte pedonal no sítio da Ponte Pênsil, etc. Sem resultado. Vieram depois estudos e mais estudos para resolver o problema. Enquanto isso, a vergonha e a incapacidade permanecem e milhares estão condenados à travessia por passeios de um metro e picos. É 1886 no século XXI!

Um dia, em Bordéus, o meu saudoso professor René La Borderie espantou-nos com esta tirada magistral: «Quando a estética se sobrepõe às necessidades das pessoas, chama-se fascismo.» Nem mais.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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