Da cidade feliz

Nas andanças da modernidade, quase me sinto mal a falar de certos assuntos e a usar certas expressões. Como, por exemplo, «no meu tempo» ou «ainda sou do tempo» que, nos dias que deslizam por aí, tresandam a pau carunchoso e coisa pior (passadista será a mais «soft» – metendo palavra a preceito).

Não importa. Como os meus mestres de ver o Porto (Firmino Pereira, Alberto Pimentel ou Ricardo Jorge) falavam assim, vou em frente. Vou e digo que ainda sou do tempo em que se musicava nos jardins do Burgo. Uma das primeiras experiências de ar livre que vivi foi, quase de bibe e pela mão do avô Eduardo, a ouvir música no coreto da Cordoaria (no verdadeiro, da alameda dos plátanos, e não na falsificação que lá está.) Nele tocava a Banda do 18, do Quartel de S.to Ovídio.

Na Cordoaria, por ficar à mão, perto da Rua do Correio. Vieram depois os concertos na concha da Avenida das Tílias, no Palácio (mais de classe média, com um quarteto interpretando o que chamavam «música de salão» e os ingleses «light music»). Tardes inesquecíveis em que até as tílias eram odorosas (agora não lhes sinto o cheiro, mas devo estar a envelhecer). E havia cadeiras de jardim para nos sentarmos. O terceiro local de ouvir música era o Passeio Alegre, com referência aos refrescos de groselha, após, no chalet do Carneiro.

E veio-me isto à ideia, em turbilhão de infância e de saudade, a propósito da recente iniciativa de levar novamente a música aos coretos dos jardins portuenses. Não posso estar mais de acordo e mais contente. Afinal, se o passado passou e não vale a pena ressuscitá-lo, aproveitar dele o melhor de uma tradição futurível é dar provas de boa sabedoria. Porque a música nos jardins significava a cultura junto das pessoas, o fundamento de uma cidade feliz. E isso é o que nós queremos.

©helderpacheco2017

 

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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