Demolir ou reabilitar

Aí por 1980, num seminário sobre Património, no Funchal, expus o significado social que caracterizava as ilhas e bairros operários do Porto. Defendi que o projecto SAAL, que pretendia reabilitá-los, seria a solução mais justa para a sua qualificação. E critiquei a centrifugação (ou o desterro) para a periferia ou para fora da cidade de milhares de pessoas, pois o caminho teria sido reabilitar e reconstruir bairros e ilhas e não deportar populações para os guetos onde inúmeras famílias nunca se integraram.

A isto se opôs intempestivamente um participante que se apresentou como arquitecto de alguns bairros municipais do Porto. Para ele eram a opção política socialmente adequada. E o resto balelas e propaganda ideológica de quem nada percebia do assunto.

Ao senhor arquitecto, que deixara o Burgo, era indiferente o que se adivinhava e veio a agudizar-se dramaticamente: os problemas de exclusão e violência que alguns bairros «modelares» que projectara originaram e cujas consequências estão à vista. E omitia ou ignorava que, 30 ou 40 anos depois da destruição de muitas comunidades, as feridas que ficaram no seu lugar permanecem vivas (vejam-se a Fontinha, Eirinhas, Carvalheiras, S. Brás e por aí fora).

Mas a ironia das ironias, a incongruência das incongruências, a contradição das contradições, ou, se quiserem, o ajuste de contas com a História deste processo de implosão do Porto atingiu agora o clímax. De facto, a nova descoberta e moda da pós-modernidade é reabilitar ilhas e bairros operários para fins turísticos. O que não servia e era condenado por insalubre para reconstruir como habitação social serve para oferecer a visitantes à cata do pitoresco e do autêntico: «Oh, tempos! Oh, costumes!», dizia Cícero. E eu acrescento: «Afinal, onde estava a razão?»

©helderpacheco2017

~ por Helder Pacheco em 2017-11-19.

 
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