Já floriram as Jacarandás

Passaram anos desde que a cortaram, mas continuo a ter saudades da jacarandá do Viriato. Viu-me nascer e vi-a morrer. Nunca percebi e logo desconfiei do modo como, depois de décadas de maravilhamento azul, quando transformava aquele largo incaracterístico em deslumbramento, de repente, dizia, ela desatou a fenecer. E secou.

A minha desconfiança radica no facto de, na época, a árvore fabulosa ter suscitado reclamações de alguns motorizados-cidadãos. Segundo eles, as pétalas, talvez pela intensidade azulínea, caíam sobre os automóveis e ofendiam-lhes as pinturas (sic – não ao verbo ofender, mas aos «estragos» alegadamente causados por substância maléfica das jacarandás, que manchava a tinta). E, como todos sabemos, além de haver cem maneiras de cozinhar bacalhau e outras tantas de matar pulgas, existem inúmeras formas de exterminar árvores. De as fazer secar. De maneira que, sem querer armar ao suspeitoso, fiquei de pé atrás quanto à morte da Jacarandá do Viriato. A da minha saudade.

Mas estou compensado. A Ilustríssima Câmara desta cidade bem-amada entendeu (e bem), há tempos, plantar jacarandás, em muitos lugares. Agora até as tenho ao pé de casa e há ruas inteiras com elas (e no meu jardim secreto, no jardim interior que transportamos desde a infância, uma deu flor, pela primeira vez). E a cidade tornou-se mais azul. Naquele azul especial não o cerúleo, nem turquesa, nem ultramarino, nem marinho. Naquele azul que mistura todos os outros com o do céu, quando está claro. E mais a cor do sonho e da fantasia que só de ver as jacarandás floridas no Ouro, em Sá da Bandeira, em 24 de Agosto, na Boavista e por aí fora, tornam a cidade mais feliz. E de cidades felizes é que andamos a precisar, depois dos anos de chumbo do neo-salazarismo chamado austeridade.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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