Maria Ruth

As más notícias chegam pelos jornais ou pelo telefone. Como se fala pouco, raramente chegam em conversas. E com a indústria moderna chegam-nos informaticamente. Foi o caso. Recebi a notícia lacónica. A doer: «Morreu Ruth Escobar.» E depois: «Um ícone do teatro brasileiro, que revolucionou. Militante cultural e cívica. Uma força da natureza. A doença de Alzheimer, que a apoquentava há longos anos, logrou aquilo que nem a Ditadura Militar conseguiu: silenciou-a.»

Para os tripeiros, ela reveste especial simbolismo: nascida em Campanhã, de família operária, em 1935, aqui viveu com a mãe até 1951, quando emigraram para o Brasil. Expoente teatral daquele país, fundou a Companhia Novo Teatro e criou o Teatro Popular Nacional. Mulher de causas, combateu censores e opressores. Em 1973, veio ao Porto apresentar a peça “Miss Leiga”, no Rivoli, cuidadosamente vigiada pela Pide.

Apesar da distância, Ruth manteve da Invicta memórias de lugares e da gente. Na sua Autobiografia (1987), delas escreveria páginas deliciosas: «Lembro-me do trajecto invariável de todos os dias: da Rua do Bonjardim subo a João das Regras, atravesso a praça da República, desço a Rua dos Mártires da Liberdade e entro na Praça Coronel Pacheco – onde ficava o Liceu Carolina Michaëlis [que frequentou]. (…) E o trajecto para a praia, o trajecto a pé até à Praça da República onde esperávamos o carro eléctrico (…) dava voltas na Rotunda da Boavista e descia uma avenida imponente, com palacetes e árvores monumentais até à foz, até o mar». E fala do S. João «com o alho-porro» e da Rua Santa Catarina: «a Hollywood com suas lojas finas, finíssimas». Além de evocações de uma fidelidade sem mácula.

Por tudo isto e o mais desta cidadã admirável, ficaria bem à sua cidade natal homenageá-la em nome de rua. Acho eu.

©helderpacheco2017

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
%d bloggers like this: