No lagarteiro

Em St. Albans (Londres), há uma azenha a moer e, dentro, uma casa de chá serve scones cozinhados com a farinha própria. E, no subúrbio de York, há o moinho de vento de Skidby, famoso pela farinha que produz. E, na Suécia, em Torvsjo, há moinhos de água a moerem. E, em Estocolmo, indo para o Aeroporto de Bromma, vêem-se moinhos de vento. E, em Umea, Vasterbotten, há moinhos de vento. Sem falar nos da paisagem holandesa. Etc. E, em Gaia, no Parque Biológico, existe um moinho de rodízio activo.

As Memórias Paroquiais de Campanhã, de 1758, indicam, nos rios Tinto e Torto, 58 moinhos. Alguns chegaram até nós. No Pego Negro, Tirares, Lagarteiro, Azevedo e Fatum. No milénio passado, levei responsáveis camarários ao de Tirares, para os convencer a integrá-lo no património municipal como centro interpretativo e pedagógico. Debalde. Não sendo perfomance, happening, não é cultura.

Pensei que o Parque Oriental incluiria a conservação de aldeias, lugares, moinhos, paisagens agrícolas em espécie de Open Air Museum (superior a Beamish e outros, porque não artificial). Espaço milagrosamente conservado, poderia constituir enorme recurso estratégico para a afirmação turística da cidade.

Passei há dias no Lagarteiro. Encontrei o sítio todo revolvido e um caterpillar em acção. Percebi depois que se tratava da «construção do Interceptor do Rio Tinto», destinado a «Proteger o ambiente e promover a eficiência de recursos» (custo 9 257 584.40 €). Com tanto dinheiro, técnica e tais palavras, estou para ver o que sai dali em matéria de «protecção» do ambiente cultural do sítio. Para já, saiu mal: o moinho do Lagarteiro, ao lado da ponte, sumiu. Evaporou-se a golpes de progresso. E temo que Tinto acima a mesma «promoção da eficiência» arrase os outros que sobrevivem no Vale de Campanhã.

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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