O Cruzinho

O Bairro do Cruzinho saltou para a ribalta da imprensa e da atenção pública. Não é de todo inesperado, porque há muito se adivinhava o apetite devorador que certo empreendedorismo sempre manifestou. O que se passou com o bairro dos Marinhos é exemplar da transformação não de sítios industriais em condomínios (que se entende como natural), mas de habitação social em habitação de luxo. Nos bairros da Parceria e Antunes, a transição ainda se fez para habitação social e um hospital (CMIN). Quanto ao resto, assistimos ao desmantelamento dos Bairros do Leal e das Eirinhas e ao arrasamento do das Carvalheiras. E outros. Ali ficou a não-cidade.

Há tempos, recebi de um morador nascido e criado no Cruzinho longa carta chamando-lhe «Bairro de Mortos, não cemitério, mas bairro de mortos, porque no cemitério não há recordações de nada nem de ninguém e aqui há». E fala do bairro dizendo: «era uma alegria e uma animação nele viver! Éramos cerca de duzentas pessoas nas suas 49 casas (…) vivíamos uma vida simples, alegre, às vezes sofrida mas sempre muito participada.» E mais coisas.

Na cidade, os bairros operários contavam-se por dezenas e hoje poucos restam. Constituíam comunidades organizadas solidariamente na alegria da festa e na tristeza do luto e da adversidade. As suas tipologias afirmavam um saber construir e saber viver em territórios estruturados na lógica de estreitas relações de vizinhança. Representavam a cidade inclusiva e fraterna funcionando «ao nível do rés-do-chão». Para quem soubesse ler as lições da História, poderiam ser o fermento de uma atitude de moderna engenharia social ao serviço da população sobrevivente ou de nova população em espécie de ponte para o futuro. E, como diria o Professor Marcelo, não perceber isto é não perceber nada de nada. No Porto.

©helderpacheco2017

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
%d bloggers like this: