O silêncio após

Fez-se silêncio. Do lado de cá do rio, em Massarelos, no Ouro, na Foz desmancharam os arraiais. As rulotes das farturas, os bares muito ambulantes, as barracas das múltiplas diversões, tal como apareceram e quase sem darmos por isso, partiram. Com os carrocéis, a montanha russa do novo visual montada ao pé do Monumento aos Tripeiros (que devem ter ficado embasbacados com a inovação). E os bailes. E as músicas, pimba e sem ser. A animação. Foi-se tudo embora e acabou o S. João.

Do lado de lá do rio, com os últimos estouros, a morteirada da despedida, acabou o S. Pedro da Afurada. As luzes e sons misturando ritmos trepidantes com sirenes dos pavilhões das aventuras espaciais e o vozear dos anunciadores dos eventos, captando o público. Fez-se silêncio e foi-se tudo embora.

E quando, na minha peregrinação semanal, no regresso às raízes (quero dizer, na minha ida à Baixa, onde sempre volto para carregar as baterias do sentir tripeiro), não encontrei as barracas das doceiras, em Sá da Bandeira, percebi a falta que ali fazem. Dado a estes rituais, como em todos os anos, ainda lá comprei o favorito, insubstituível e que cada vez mais me sabe ao melhor sabor do mundo: o doce da Teixeira. Untuoso, ancestral. Partiram as doceiras e até parece que a rua perdeu a alma. Não sei o que se passa comigo. Enquanto a maioria dos amigos gosta de sossego e tranquilidade (alguns nem querem ouvir falar em arraiais – sobretudo o da Boavista), eu acho a cidade mais triste e mais vazia. Sem a música estridente do baile ali de baixo. Sem as farturas (este ano, comi uma barrigada delas) e os cachorros colesterólicos. Sem a roda gigante e as pistas de automóveis eléctricos. Sem os risos e reinações do Junho portuense, a cidade nem me parece a mesma. (Devo estar a envelhecer pessimamente.)

©helderpacheco2017

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~ por Helder Pacheco em 19/11/2017.

 
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